Reflexões sobre a desobediência

Até bem recentemente eu não costumava dar muito valor ao verbo desobedecer. Deve ser porque a gente ouve muito falar disso na infância e aí é assim mesmo que a coisa acaba soando para a gente: infantilizada. Falar em desobediência parece coisa de rebelde sem causa, de criança carente, enfim… me passava uma imagem muito negativa, até que por esses dias comecei a entrar em contato com muito material que me fez pensar e repensar a questão da obediência, bem como a falta dela.

Faz dias que quero escrever esse texto. Mas como sempre eu penso que preciso ter mais bagagem, estruturar as ideias, saber argumentar melhor… até que em um dado momento eu só emputeço, canso de tentar me organizar e escrevo a coisa de qualquer jeito, confusa e não fundamentada. O blog é meu mesmo.

Desde que vi esse filme fiquei transtornada com essa questão. O filme é baseado em fatos reais então simplesmente não tem como eu falar dele para vocês sem fazer spoiler. E para melhorar a história é bem confusa (mais fácil assistir mesmo), mas vamos tentar: Um homem liga em uma rede de fast-food, pergunta sobre uma funcionária (citando características aleatórias, mais ou menos no mesmo esquema dos assaltos por telefone aqui do Brasil) e a acusa de roubo. Ele, que se diz delegado, investigador da polícia, vai passando para a gerente as instruções de como agir com essa funcionária até que ele chegue ao local.

Ele instrui a gerente a revistar a moça, checar seus bolsos, sua bolsa e então… tirar sua roupa. Toda a roupa. Conferir se ela não está escondendo nada mesmo. Depois pede que a mantenham em cárcere privado – obviamente não com essas palavras – presa dentro de uma salinha. Sempre com alguém que possa estar ali controlando-a, de guarda mesmo. A situação chega em um nível no qual a menina é violentada.

Como eu disse, o filme é baseado em fatos reais. Aqui você encontra o vídeo real, nos provando que, por mais absurda que a situação pareça, o filme não exagerou at all. Foi basicamente isso mesmo. E esse foi apenas um de mais de 70 casos do tipo que foram registrados nos Estados Unidos: Um homem ligava, alegava ser uma autoridade, acusava alguém e ia orientando como as pessoas deveriam agir. Não sei como ficaram os outros casos. Nesse em específico sei que a gerente foi processada e condenada. O tal homem que passou os trotes, em compensação, até onde eu saiba foi inteiramente absolvido. Ele alegou que só estava falando no telefone. O que de fato foi o que ele fez.

Desde então tenho pensado sobre essas figuras de autoridade em nossas vidas, que começam sendo nossos pais e vão mudando de figura ao longo da vida: Policiais, professores, chefes, enfim… todos esses títulos carregam com eles uma boa carga de imposição sobre nós. E a eles, nós desde pequenos ouvimos, devemos obediência.

Aliás, essa é uma palavra constantemente dita pela maioria dos pais: “obedeça”. A mim, à sua avó, ao seu irmão. O que exatamente significa isso? Qual interesse temos em criar filhos, alunos, nações obedientes? Para quem serve essa obediência?

Veja bem, na prática, o obedecer consiste basicamente em acatar ordens. Sem questionamento (aliás, quem nunca ouviu o bom e velho “não me responda” que atire a primeira pedra), sem reflexão, apenas por um suposto “respeito” que devemos ter pelas figuras que são colocadas em nossa vida como autoridades, devemos confiar a elas plenamente nosso corpo, nossa saúde, nossas ações em geral. Eles sabem o que é melhor para nós, cabe a eles indicar o que devemos ou não fazer. E a nós, cabe obedecer.

Tudo isso pode parecer muito simples quando pensamos em um âmbito privado. É muito normal falar em obedecer aos pais como algo até positivo. Entretanto, é sempre bom lembrar que as pessoas que formam uma família são as mesmas que formam todo o resto da sociedade, toda uma nação. E aí quando passamos essa ideia para um cenário histórico mais abrangente a coisa fica mais complexa.

Nesses meios de ativismo da vida eu já tinha ouvido várias vezes que muito mais sangue foi derramado em nome da ordem do que da desordem (a frase não é bem essa, mas vocês pegaram a ideia, não é?). E, bom, quando pensamos nessa cultura da aceitação, isso faz todo sentido. Os piores absurdos que o mundo já viu so foram possíveis porque haviam pessoas que obedeciam. A ditadura militar, o holocausto, tudo isso se constituiu não com base em um monte de pessoas más que isoladamente queriam torturar outras, mas sim com líderes, figuras com autoridade, que eram respeitadas e, portanto, obedecidas pelas outras.

No filme O Leitor – mais spoilers, lidem – há um julgamento no qual uma mulher é acusada de matar queimadas milhares de outras. Ela então explica que não podia deixar elas saírem, que só estava fazendo o trabalho dela (e essa é outra frase diária usada sistematicamente para justificar atos que as pessoas não tem exatamente como explicar “eu só estou fazendo o meu trabalho”). E aí é claro que temos muito da questão financeira, do emprego, da necessidade dele e da estabilidade, mas eu me arrisco a dizer que essas são questões superficiais e que o buraco é mais embaixo.

No primeiro filme que citei, o suposto policial faz questão de constantemente elogiar a gerente que está ajudando ele,  diz que ela está “fazendo um bom trabalho”. E isso de “fazer um bom trabalho” é muito interessante.

O primeiro ponto é social. Vivemos em um mundo que valoriza muito essa questão do trabalho, do se mostrar prestativo, útil. Se você escolhe viver uma vida na qual não tem muita utilidade para o sistema atual – por exemplo, consumir, fazer o dinheiro girar – seu modelo de vida dificilmente vai ser socialmente considerado bom. Você precisa ser produtivo. O segundo ponto é ainda mais profundo, a questão egóica do ser humano que desde a infância, e durante toda a vida, permanece ligado ao reforço positivo, à necessidade de ouvir elogios.

Essas duas coisas se juntam e atingem as pessoas de uma forma tão profunda que sequer é percebida e, por muitas vezes, acaba comandando a vida delas. “Fazer um bom trabalho” é ao mesmo tempo se sentir bem consigo mesmo e útil para o meio que te cerca.

Algo que ilustra bem isso são os soldados de guerra que voltemeia são condecorados e exibem com orgulho suas medalhas que, não raramente, significam basicamente que aquela pessoa matou muitas outras. Mas é claro que com o ego e o interesse do Estado trabalhando juntos tem para eles um valor simbólico muito mais profundo do que isso.

Inevitavelmente com esse tipo de história a gente se questiona. Até onde eu iria? Em que momento eu deixaria a obediência de lado? Quando perceberia que aquilo se tratava de um trote? Um genocídio? Uma guerra injusta que não era minha?

Em resumo o que quero dizer é: Quando estamos muito focados em fazer um bom trabalho, nos esquecemos de pensar se estamos fazendo um trabalho bom. Em nome da obediência o questionamento é deixado de lado. E a partir disso tudo é possível. Tudo mesmo. É ingenuidade pensar que é difícil perder esse foco. Não é. Você provavelmente já o perdeu diversas vezes ao longo da vida (bem como eu). E quando ele é perdido podemos ser transformados em qualquer coisa que esperam de nós.

Ps. Eu queria ir mais longe aqui, falar sobre como a legislação age sobre nós. Citar que só chamamos e só encaramos como drogas os entorpecentes ilícitos, enquanto os remédios de farmácia são tratados com extrema naturalidade e o fato de que voltemeia usamos “é crime” como argumento inquestionável e inviolável. Mas acho que isso aqui, que a princípio era para se chamar “breve reflexão sobre a desobediência”, já ficou não breve demais para a madrugada de uma segunda-feira.

Ps2. Acabei de digitar “obediência” no google e estou chocada com o número de imagens se referindo a deus que apareceram. Dá para falar um monte sobre isso também.

Advertisements
Reflexões sobre a desobediência

So, I’m alone.

Essa foi minha conclusão mais recente.

Há muito tempo eu não experimentava essa situação de estar sozinha. Bem sozinha. Sem confiar em ninguém, sem ter com quem contar, para onde correr, onde gritar por ajuda. Pois bem, atualmente estou sozinha.

Começou em um dia que eu estava doente e precisava ir no médico. Nenhuma ajuda. Nenhuma companhia. Ninguém que pudesse cuidar da minha filha para que eu fosse ver o que era essa febre cheia de calafrios que remédio nenhum abaixava. Também não tinha nenhum dinheiro no bolso para pegar um táxi. Nada.

Continuou nos finais de semana seguintes. Eu precisei ir para aula, precisei sair, precisei trabalhar. Ninguém. Nada.

Então é isso. Sozinha. Parece romântico, mas a situação é péssima. É triste. De repente você percebe que está tudo nas suas mãos, assim, só nas suas mesmo. Você não tem com quem dividir o peso. Esse tipo de solidão abre um certo buraco em nós, um vazio tão grande que cabe tudo o que se pode imaginar.

Mas eu como boa Poliana encontrei o outro lado disso. E essa solidão veio muito bem acompanhada de uma liberdade que há tempos estava guardada na gaveta.

Então, eu estou sozinha. Eu vou continuar estando sozinha não importa onde eu esteja. Então eu posso estar onde quiser. Eu posso pegar uma mochila com toda minha utopia, minha insatisfação crônica e minhas responsabilidades e cuidar de tudo isso sozinha em outro lugar. Então meu lar está todo em mim. Comigo.

Então, talvez eu finalmente esteja sozinha. Sozinha o bastante para ter só o silêncio, para me ouvir com mais clareza, para fazer da minha vida a vida que eu quero. Para ir embora para mais perto de mim. E vou.

Vou deixar minha solidão trocar de paisagem.

 

So, I’m alone.

Ando querendo falar de amor…

Há dias quero falar de amor. Para ser bem, bem sincera, só criei esse blog para poder falar de amor.

O problema é: Há muito tempo não falo de amor. E o amor muda demais. Tenho medo de não saber mais falar de amor. Porque da última vez que falei de amor, o amor estava tão diferente.

Tem muito amor na minha vida atualmente. Muito. Muito mais do que eu posso aguentar, muito mais do que acredito merecer. Mais o amor atualmente está reconfigurado. Está poli, múltiplo, espalhado. Está em sonho, em declaração espontânea, em foto, em desabafo, em saudades, em planos, na próxima balada, distante e logo ao meu lado na cama. O amor atualmente tem muitas caras.

Eu ando querendo falar de amor, mas fica tão difícil falar quando se escuta tanto. O amor atualmente tem muitas vozes. O amor tem aparecido por aqui soando como Tiê, Manu Chao, Cocorosie, Metallica, Cat Power, Rihanna, Megadeth e Clarice Falcão. É tanto amor que me embala, me grita, me dança, me gira pelo bar me acolhe e me põe para dormir. Assim, pelos ouvidos, pelas palavras, pela memória e pela espera.

Ando querendo falar desse amor desconstruído que vem chegado de todos os lados. Desse amor em excesso. Excesso de sinceridade, de entrega, de loucura, de apoio, de mistério, de exposição. Pensando bem, ando querendo falar de amores.

De todos os amores do mundo, de todas as formas de amar. Menos do que sinto e mais do que tem chegado até mim. Ando querendo falar do amor externo. Amor que nos atinge. Amor em forma de gente. E aí é complicado falar mesmo.

Porque é muito mosaico para a gente observar. E tanta pluralidade não dá para ser resumida. Aliás, dá.  Mas só em uma palavra: Amor.

Então basicamente o que eu tenho para falar sobre o amor atualmente, ele mesmo já diz. Diz em som, cor, forma, toque. Diz em nostalgia e em ansiedade. O amor me fala por fotos, por letras, cheiros, por vontades, por sentidos. Por tudo o que tem vindo até aqui e ficado.

O amor me fala sobre ele em forma de amor.

Ando querendo falar de amor…