Desconfio

Desconfio da trivialidade
Da magia
Do poder
Da cidade

Desconfio do excesso
que falta

Falta tempo
falta recesso

Falta empatia nos sorrisos
Falta verdade
profundidade

Sobra uma carência
que invade
adentra
abusa

Desconfio
da sapiência
da juventude confusa

Falta chão
Terra

Sobra perigo
falta abrigo

Sobra uma ilusão
sincera
discreta

– Eu me dou o direito de desconfiar
Decreta

Desconfio

A quem serve a tua infelicidade?

Uma das maiores heranças que o cristianismo nos deixou foi a culpa. É engraçado (mentira, não é engraçado, é triste pra caralho) como ela nos afetou de maneira universal. Mesmo os mais rebeldes, os mais subversivos, os grupos mais rompantes com relação a sociedade e dogmas seguem aprisionados a ela. A culpa nos invade.

E é claro que a culpa não é só culpa. A ideologia do sacrifício nos aprisiona em uma gaiola de sentimentos negativos: Tristeza, autopunição, glamourização da sofrimento. Parece ser necessário que penemos. Parece que só é válido e verdadeiro aquilo que é fundamentalmente dolorido.

Os movimentos sociais muitas vezes se veem pautados nessa base. Afinal, só existe militância porque o mundo é triste e, portanto, é preciso ser triste com ele. É preciso se doer, se sacrificar, dar o sangue. A ideologia do herói.

“Enquanto te exploram tu grita gol!” é uma pichação muito citada, compartilhada e espalhada por aí em forma de ideias. Teoricamente rompante com a “política do pão e circo” – embora eu, particularmente, encare essa visão como um tremendo elitismo, mas não vamos perder o foco – mas, de forma prática, culpabilizadora. Que feio é “gritar gol” da tua parte, explorado. Rompa logo as tuas amarras! Pare de ser boneco do sistema!

Não, não e não.

Eu, embora partindo do mesmo pressuposto que gera esse ciclo de negativismo, tenho ido cada vez mais para o outro lado. Afinal é exatamente isso: Só existe militância porque o mundo é triste.

Só existe militância porque o mundo é triste.

É por isso que queremos mudar o mundo: Justamente porque ele é triste. Se as pessoas estivessem plenamente felizes com a situação atual não haveria porque grupo nenhum, indivíduo nenhum querer mudar o mundo. Só queremos transformar a realidade porque, embora muitos prefiram ignorar isso, muita gente está triste com o mundo como ele está. O objetivo final é justamente a felicidade. Felicidade coletiva, felicidade genuína. Essa, que só tem como nascer, pautada na liberdade.

Ora e se o objetivo final é a felicidade, por que então essa não pode ser o meio? Pode sim.

Pode gritar gol, pode pular carnaval e amar natal em família. Pode parar de se culpar por tudo o que te disseram ser ridículo, ser vexaminoso, tanto hegemonicamente quanto no que chamamos de grupos de “resistência”. Pode sentir teu corpo e tua consciência e se deixar ser. Porque não gritar gol, não diminui a exploração que você sofre na pele.

Felicidade é resistência.

A felicidade é revolucionária.

Tão revolucionária que incomoda. A infelicidade dos grupos oprimidos socialmente não é apenas combustível para os movimentos sociais, é o triunfo do opressor. A tristeza está a serviço dos que odeiam. É exatamente isso que querem, nos ver penando, aos prantos, agonizando.

Tanto é que as manifestações mais felizes são as que mais incomodam.

A luta séria, severa e sofrida pelo casamento entre pessoas do mesmo gênero incomoda sim, mas não tanto quanto um beijo público (que não envolva 01 homem e 01 mulher, de preferência brancos e magros). Uma demonstração de amor, de afeto, de carinho ou de pura luxúria dessas é extremamente desconcertante para os conservadores. Olhe lá, que ofensivo, estão sendo felizes e sem a nossa autorização!

Voltemeia em uma ou outra manifestação eu costumo soltar frases do tipo “se não posso ficar loucassa, não é minha revolução” ou “se não posso pegar geral, não é minha revolução”. É brincadeira. Mas é verdade.

Tudo o que você faz na sua vida é ela. Faz parte dela. A forma. Cada ato, cada manifestação, cada causa em que você acredita, cada revolução da qual você participa é também parte de você. E eu não quero ser essa culpa, essa tristeza, esse sacrifício. Eu quero que todas as pessoas sejam, livremente felizes. É só por isso que brigo, só por isso que luto.

E é por isso que podemos sim começar por nós. Acho digno. Acho justo.

Acho que o nosso sorriso incomoda quem está contra nós e dá forças a quem é nosso aliado. A felicidade é capaz de empoderar, fortalecer e transformar. Enquanto a culpa nos deixa estagnados, presos em uma sensação improdutiva e a tristeza suga nossas energias, a felicidade é poderosamente mobilizadora, construtiva.

Ser feliz é um ato subversivo.

Quando se está do outro lado, quando não se é alguém do comercial de margarina, quando se vive diariamente as opressões colocadas sobre nós – o machismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, o preconceito de classes – sobreviver já é, em si, um combate ao sistema. Sobreviver com um sorriso no rosto, então, é ameaçador.

E maravilhoso.

Não tenhamos medo de nossa própria alegria. Não nos deixemos paralisar pela valorização do sacrifício. Sejamos individual, coletiva e publicamente felizes.

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A quem serve a tua infelicidade?