Terra firme

Eu pisei na areia. Dois meses atrás eu pisei na areia. E fiquei.

Eu pisei na areia e decidi que ali seria minha terra firme. Que coisa louca essa, de gente que passou a vida inteira voando, cheia de solo, concreto, ali pertinho, logo abaixo. Mas só decide pisar no chão quando chega na areia.

Fiz da areia minha terra firme.

Só ela, assim, instável como eu, me deu vontade de ficar. Só ela me solidificou. Essa areia que voa, leva e afunda. Essa areia é meu concreto.

E a gente já ficou muito longe. Muito tempo. Deixa eu te fazer de solo. Deixa eu construir aqui, no meio de toda essa areia fofa, o que há de mais sólido na minha vida. E a gente vai passar a vida assim. Juntas, olhando o mar. Eu e a areia.

Me engole. Me movediça.

Que aqui eu fico. E piso forte, firme, direta. Com a certeza de quem quer ficar. E olha que eu não sou de ficar. Eu vou. Só não vou quando já estou em casa.

Estou em casa.

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Terra firme

Sobre solidões

“s.f. Estado de quem está só, retirado do mundo; isolamento: os encantos da solidão.
Ermo, lugar despovoado e não frequentado pelas pessoas: retirar-se na solidão.
Isolamento moral, interiorização: a solidão do espírito.”

Eu poderia escrever um livro todo sobre a solidão. Não é de hoje minha relação profunda com essa palavra, meu amor e minha dedicação à ela. Porque, me perdoem aqui o excesso de pós-modernidade, mas para mim poucas coisas são certas sobre a solidão. A primeira é que ela é muitas. É plural. Cada um estabelece uma relação com a solidão.

A segunda é que ela dá medo. Mesmo para aqueles que, como eu, estabelecem com ela uma relação positiva. Nutrem um certo afeto. A solidão é universalmente assustadora.

Mas voltando a pluralidade: Solidões. Ironicamente, embora essa seja a palavra mais sozinha da língua portuguesa, não há uma só solidão. Eu, desde que a aceitei em minha vida, tenho conhecido as mais diversas solidões. Sobre uma delas eu falei aqui.

Uma outra eu tenho experimentado agora. Essa se dá simultaneamente em um plano prático, material e racional, filosófico. Tenho gostado de chamá-la de solidão necessária (porque, de fato, ela é).

Diferente da solidão de quem está cercado e se sente sozinho, essa solidão é mais física, mais palpável. É um estado de reclusão. Dá para chamar de casulo também, se assim preferir. Aliás, o casulo é uma metáfora fantástica.

Porque lá estamos nós, sozinhos, em um aparente isolamento, uma superficialidade estática. E nos debatendo. Tanta coisa acontece dentro de um casulo que acho até meio impossível descrever. É a maior das transformações. Um excesso de movimento e trabalho arquitetônico contínuo de quem está prestes a voar.

Solidão necessária. Bem como passageira. Tão temporária quanto inevitável.

É como se dispor a entrar em um labirinto e, sem pressa, se dedicar a atravessá-lo. Devagar. Conhecendo ponto a ponto. Voltando. Refazendo as estratégias. Por saber que está lá, do outro lado, o lugar no qual se deseja chegar. E ficar parado no começo, mesmo que cercado, mesmo que envolvido, sem solidão alguma, não nos leva magicamente a lugar algum.

Solidão de quem quer se encontrar.

E com essa é preciso estabelecer uma boa relação. Abraçá-la. E olha que, essa solidão – em especial – é assustadora. Talvez ainda mais do que as outras. Mas nós precisamos aceitá-la. Se possível até aprender a amar um pouquinho esse estágio.

Porque uma vez que ela está aqui já significa não ser mais possível voltar ao outro estágio, o inicial. Essa história bem platônica, bem Mito da Caverna mesmo. Ele está aqui. Essa solidão está aqui e – dolorosamente ou não – é ela que vai nos levar ao norte.

Nos agarremos nesta bússola.

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Sobre solidões