Fecham-se as cortinas

Existem muitos problemas na nossa relação. O meu maior objetivo atual é convencer-me de que eles são teus. Mais do que isso, tenho me dedicado diariamente a criar a certeza absoluta de que o problema é, de fato, você.

Seria. Não fosse o meu histórico. Lá vem ele. E vem em peso. Todos os meus relacionamentos passados ressurgem na minha mente para mostrar-me que, não só tenho sempre os mesmos problemas, como em geral eles existem mais dentro de mim do que no plano material.

(Deve, inclusive, ser chocante para você ler que “existem muitos problemas na nossa relação”, quando aparentemente eles não existem. Mas eu os crio. Repetidamente.)

Tenho outras coisas para culpar também:
– O fato de você ser homem. Essa é boa, mas me dá um certo trabalho. Já que para convencer-me dela preciso continuar ignorando o histórico, que existe para me provar que, em minhas relações com mulheres, crio precisamente os mesmos problemas.
– O meu mapa astral. Essa, tu bem sabes, é sempre minha desculpa favorita.

Então vamos lá, opção três: Meu mapa astral. Tem muito libra. E muito leão. Tu não sabes bem o que isso significa, né? Explico.

Junte aí a insegurança e o romantismo libriano com o egocentrismo leonino. Pronto. Em termos práticos basicamente o que faço é doar o melhor de mim. Mostrar o que há de mais bonito, mais forte, mais surpreendente, encantador e apaixonante. Eu quero ser apaixonante. Eu gosto de sê-lo.

E já até aceitei essa parte. Compreendi que esse é o papel que nasci para ocupar na vida das pessoas: O de ser uma lembrança boa. Eu sei que sou efêmera – e aqui entra o resto dos planetas do mapa, cheios de gêmeos – e que não duro muito. Então me dedico e movo minhas atitudes em direção a isso. A fazer de mim uma lembrança boa. Eu quero. Eu gosto de sê-lo.

O problema é que nem todo mundo é assim volátil. Tem gente que fica. Tu mesmo, já tais aí a tanto tempo. E quando me aparece gente como você, que insiste em ficar, eu perco o rumo. Eu fico cansada. Cansada de ser bonita, forte, surpreendente, encantadora e apaixonante.

Eu, fascinada com esse poder de ficar, que parece tão natural, tão inato nos outros, sinto uma vontade enorme de me deitar no teu colo e descansar. Aceitar e me entregar a tua estadia. Quero me aninhar no teu peito e – enfim – poder me revelar assim, nua, crua e não tão apaixonante. Feia, fraca e monótona.

Não me entenda mal: Amo o papel que interpreto. A protagonista de filme brasileiro. A mulher livre, linda e louca. Não pretendo deixá-lo. Ele é também parte de mim. É o que me dá forças, o que me faz me amar. O que me faz ser amada. Inclusive por ti.

Mas tanto tempo dentro dele me cansa. E as vezes – só as vezes – eu quero mais que respirar na coxia antes de entrar em cena novamente. Eu quero te levar para o camarim e pendurar a fantasia. Eu quero tirar a maquiagem, as perucas, as falas e os gestos grandiosos. Com as olheiras, o suor o furor e a exaustão do pós-espetáculo, eu quero parar. Ser menos livre, menos linda, menos louca.

Eu quero poder ser pequenininha ao teu lado.

E te jogar na cara tudo o que há dentro de mim: Todas as palavras não ditas e os sentimentos não vividos. Bons e ruins. O meu desequilíbrio, minha fraqueza, minha falta de fé e essa profunda insegurança na qual vivo mergulhada. A beleza e o tamanho do que sinto por você. É imenso. Mas não está no roteiro te dizer. Então eu me calo.

tumblr_mkwwky12kY1s1bpino1_500Esse é o problema da nossa relação. Esse é o problema de todas as minhas relações. Eu sempre doo demais, logo de cara. E me esgoto. E me sinto sufocada por essa imagem grandiosa de mim que eu mesma criei. E não consigo sair dela.

Eu montei meu figurino, fotografia e roteiro. Garanti que permanecessem intactos durante todo o espetáculo. Mas as cortinas já fecharam e tu não foi embora.

Tu ficastes. E eu não sei mais o que faço em cima desse palco.

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Fecham-se as cortinas

Desprosear-me

Dia cheio, noite vazia
E de repente me encontrei
Em poesia

Uma dor tão grande
Um oco tão cheio
O céu e o inferno dos amantes
O ódio e o amor de vênus
E seus entremeios

Dia feio, noite fria
E eu exausta de tanto pensar
Procurar

De tantas respostas
Me invadiram mais perguntas
Questões tortas
Me arrastaram por caminhos
De taças quebradas
E vinhos

Me encontrei em poesia
Depois de buscar, fugir, me entregar, reagir
Li

Senti

E me afoguei em toda essa confusão
Deixei a água me dominar
A lua mudar minha maré

Nas minhas ondas, cheias de propulsão
Quis eu mesma velejar
Quis andar a pé

Um medo tão forte
Mantendo distante
Vivendo a própria morte
Racionalizando
Indo adiante

Me encontrei em poesia
Me descobri

Não há nada melhor para se fazer com sentimentos
Do que sentir

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Desprosear-me