Dou a lua a mim*

Escorro em lua nova. Transbordo.

Deixo a beleza da lua cheia para ela. Não a tiro. Inteira. Brilhando. Pronta para ser vista, exaltada, admirada. Não a menosprezo. Mas eu, particularmente, sou lua nova.

Lua nova que, reclusa, renasce.

Me afogo em lua nova.

Acompanho-a em seu movimento silencioso. Recupero as energias. Sinto, sangro, sofro e saturo. Até começar a brotar pelas beiradas. Até quebrar parte a parte o casulo que me envolve.

Reabro-me em lua nova.

Lanço voo. Rumo ao céu, mas com cheiro de terra. De raiz, brotinho. Tudo ainda sem forma. Sem brilho, sem cheiro, sem flor. Tudo ainda meio cru, desajeitado, sombrio.

A parte mais viva da lua. O início. O parto.

Desperto em lua nova.

Deixo o breu tomar conta. Os olhos alheios, fascinados em busca da lua cheia, pouco veem. Sentem apenas a ausência, tateiam a escuridão. Enquanto eu, dou a luz a mim.

 

*O título desse texto era apenas “lua nova”, mas ao escrever a última frase dele, cometi o ato falho de trocar a palavra “luz” por “lua”. Achei simbólico demais para deixar passar.

Dou a lua a mim*

Tribunal

Eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada. É esse o efeito de um sábado chuvoso em casa: Enviar uma carta para uma ex-namorada. O calendário tem um efeito importante sobre nós. Eu dificilmente enviaria essa carta em uma terça comum. Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

É engraçada a forma como estabelecemos nossa própria ordem. De repente existem milhares de regras, que aparentemente ninguém colocou, mas estão lá. Para nós, não há dúvida de que estão lá.

Escrevemos com nossas inseguranças e nossa pouca experiência essa bíblia. E a guardamos a sete chaves. Acatamos diária e quase que inconscientemente as ordens ali expressas. Claramente ditadas por uma divindade interior de caráter extremamente patriarcal. Dez, vinte, trezentos mandamentos nos martelando a todo momento.

Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

i-give-myself-very-good-advice
“Eu me dou ótimos conselhos, mas eu raramente os sigo.” Alice

Também já revi muitas conversas, comi mais do que deveria, ouvi músicas que achava que já tinha superado e procurei no google sobre como cuidar de gérberas.

(Acho que a parte de procurar no google sobre como cuidar de gérberas é o maior dos pecados. Mas eu realmente gosto muito de gérberas.)

Nós vamos achando espaços, dentro de nossas próprias regras, para burlá-las.

Atenuantes. Há de haver lugar para os atenuantes.

Advogamos em prol do nosso id. Buscamos as falhas, os pequenos deslizes, as exceções expressas e não expressas na lei para que possamos jogá-las em nossa própria cara. Protestar. Com faixas, cartazes e gritos ensaiados vamos as ruas em defesa de nossas próprias fraquezas. Na função de libertá-las. De permitir aos nossos pecados que existam e se façam visíveis.

O único problema é que, chegando lá, bem em cima da hora de apresentar nossa defesa, nos deparamos com eles. Os juízes. Os únicos que podem determinar a pena que devemos ou não pegar.

E lá estão eles. Sendo nós mesmos. Estando dentro de nós.

Bem mais fácil não ter que tomar partido diante de nossos próprios processos. Mas temos. Costumamos ser cobrados, hora ou outra, pelo destino, a nos posicionarmos. E o martelo em nossas mãos costuma nos tornar cruéis em relação a nós mesmos. Um poder que nos toma conta. E nos faz colocar mais um anexo em nossa constituição. Ou reforçar uma já existente. Assegurar nossa pena.

Não fossem esses arruaceiros dos atenuantes. Dos direitos humanos. Os anarquistas do erro, do pecado, dos sábados de chuva em casa. Das cartas que escrevemos. Não fossem eles estaríamos tranquilos, dormindo sob a serenidade de nossos acertos, sabendo exatamente como será o dia de amanhã.

Mas, afinal, é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

Tribunal

Dois discos que têm feito sentido ultimamente

our_endless_numbered_days-iron__wine_480

Dois discos têm feito bastante sentido ultimamente. Acho engraçado que os dois estejam fazendo sentido assim, simultaneamente, sendo que são tão diferentes. Trabalhos diferentes que me causam sensações diferentes, mas que – de alguma forma – estão fazendo sentido juntos.

(Tenho pensado muito nessa coisa de “fazer sentido ultimamente” e da importância de se lembrar não só das coisas, mas do sentido que elas faziam em um determinado momento.)

De qualquer forma, vou falar sobre dois discos que têm feito sentido. O primeiro é Our Endless Numbered Days. Iron & Wine.

Vou começar contando que a primeira música que ouvi desse disco me foi enviada pela – já citada nas entrelinhas desse blog – incrível Mariana. Como então ele poderia não fazer sentido? É claro, minha faixa favorita do disco. Claro né, Mariana.

Tu sabias que essa seria minha faixa favorita do disco.

E faz sentido de um jeito profundamente triste, melancólico e pacífico. Ironicamente um ponto de paz profundamente ressentido. É invasivo. Iron & Wine é invasivo.

Mas faz sentido.

chinese-manO outro disco que tem feito sentido é Racing With The SunChinese Man. É claro, esse também começou com boas lembranças. Gente boa recomendando em momento bom.

O que me faz pensar que um som nunca é só um som. A gente dificilmente gosta do som pelo som. A gente gosta da memória do som, da história por traz do som, da vida do som. A arte traz consigo seu próprio contexto, como um universo próprio.

Mas Chinese Man faz sentido de uma forma muito diferente.

Tem essa vibe da minha cidade atual e toda a vida que tem existido aqui. Tudo que há ao meu redor. De bom, de gostoso, de leve. E de pesado. Tem o pesado também. E tudo aparece nesse disco.

Esse toca minha energia, minha insanidade. Me movimenta. Por favor, me digam o que é Saudade, In My Room, Get Up. Como ficar ileso a esse som?

Claramente uma postagem não condizente com a url do blog.

Dois discos que têm feito sentido ultimamente