Tribunal

Eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada. É esse o efeito de um sábado chuvoso em casa: Enviar uma carta para uma ex-namorada. O calendário tem um efeito importante sobre nós. Eu dificilmente enviaria essa carta em uma terça comum. Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

É engraçada a forma como estabelecemos nossa própria ordem. De repente existem milhares de regras, que aparentemente ninguém colocou, mas estão lá. Para nós, não há dúvida de que estão lá.

Escrevemos com nossas inseguranças e nossa pouca experiência essa bíblia. E a guardamos a sete chaves. Acatamos diária e quase que inconscientemente as ordens ali expressas. Claramente ditadas por uma divindade interior de caráter extremamente patriarcal. Dez, vinte, trezentos mandamentos nos martelando a todo momento.

Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

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“Eu me dou ótimos conselhos, mas eu raramente os sigo.” Alice

Também já revi muitas conversas, comi mais do que deveria, ouvi músicas que achava que já tinha superado e procurei no google sobre como cuidar de gérberas.

(Acho que a parte de procurar no google sobre como cuidar de gérberas é o maior dos pecados. Mas eu realmente gosto muito de gérberas.)

Nós vamos achando espaços, dentro de nossas próprias regras, para burlá-las.

Atenuantes. Há de haver lugar para os atenuantes.

Advogamos em prol do nosso id. Buscamos as falhas, os pequenos deslizes, as exceções expressas e não expressas na lei para que possamos jogá-las em nossa própria cara. Protestar. Com faixas, cartazes e gritos ensaiados vamos as ruas em defesa de nossas próprias fraquezas. Na função de libertá-las. De permitir aos nossos pecados que existam e se façam visíveis.

O único problema é que, chegando lá, bem em cima da hora de apresentar nossa defesa, nos deparamos com eles. Os juízes. Os únicos que podem determinar a pena que devemos ou não pegar.

E lá estão eles. Sendo nós mesmos. Estando dentro de nós.

Bem mais fácil não ter que tomar partido diante de nossos próprios processos. Mas temos. Costumamos ser cobrados, hora ou outra, pelo destino, a nos posicionarmos. E o martelo em nossas mãos costuma nos tornar cruéis em relação a nós mesmos. Um poder que nos toma conta. E nos faz colocar mais um anexo em nossa constituição. Ou reforçar uma já existente. Assegurar nossa pena.

Não fossem esses arruaceiros dos atenuantes. Dos direitos humanos. Os anarquistas do erro, do pecado, dos sábados de chuva em casa. Das cartas que escrevemos. Não fossem eles estaríamos tranquilos, dormindo sob a serenidade de nossos acertos, sabendo exatamente como será o dia de amanhã.

Mas, afinal, é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

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One thought on “Tribunal

  1. Comecei a ler seu texto porque tenho uma relação nostálgica com as cartas, mas, ah, quando cheguei na parte das gérberas, estaquei. Sabe aquele ponto do texto em que você se irmana com quem o escreveu, com o protagonista, o eu lírico e todas as vozes que sussurram nele? Na primeira vez em que me deparei com um pé de gérberas, fiquei chocada com a aparência da planta, o caule áspero, as folhas sem delicadeza; tão sem frescura, sem a fragilidade que costumamos associar às flores. Eu só tinha visto em buquês (nunca enviados pra mim, talvez porque nunca alguém tenha me conhecido a ponto de saber que eu gostasse de gérberas, ou mesmo de flores).
    Abraço,
    Áurea Cristina.

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