Dou a lua a mim*

Escorro em lua nova. Transbordo.

Deixo a beleza da lua cheia para ela. Não a tiro. Inteira. Brilhando. Pronta para ser vista, exaltada, admirada. Não a menosprezo. Mas eu, particularmente, sou lua nova.

Lua nova que, reclusa, renasce.

Me afogo em lua nova.

Acompanho-a em seu movimento silencioso. Recupero as energias. Sinto, sangro, sofro e saturo. Até começar a brotar pelas beiradas. Até quebrar parte a parte o casulo que me envolve.

Reabro-me em lua nova.

Lanço voo. Rumo ao céu, mas com cheiro de terra. De raiz, brotinho. Tudo ainda sem forma. Sem brilho, sem cheiro, sem flor. Tudo ainda meio cru, desajeitado, sombrio.

A parte mais viva da lua. O início. O parto.

Desperto em lua nova.

Deixo o breu tomar conta. Os olhos alheios, fascinados em busca da lua cheia, pouco veem. Sentem apenas a ausência, tateiam a escuridão. Enquanto eu, dou a luz a mim.

 

*O título desse texto era apenas “lua nova”, mas ao escrever a última frase dele, cometi o ato falho de trocar a palavra “luz” por “lua”. Achei simbólico demais para deixar passar.

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