Balança

Eu sou uma constante busca pelo equilíbrio. O centro. A moderação vertical. A balança.

E ainda me julgam harmônica. Rá! Ainda me cobram a paz de espírito, a plenitude exuberante dos centrados. Rá! Pouco sabem sobre o equilíbrio, os que o desejam pleno. Pouco sabem sobre os ferros e o peso dos pratos da balança. A força e a dor explosivas de se ficar ali, parada, estática, buscando insistentemente sustentar de forma igualitária todo o peso recebido.

Não há paz no equilíbrio.

Há, sim, um desejável controle e um incontrolável desejo de tudo. Tudo.

O equilíbrio é essa fome de mundo. De paz e de guerra, de limpo e de sujo, de amor e de ódio. O equilíbrio é nada menos do que uma fusão de excessos. Uma perdição de opostos, um cabo-de-guerra.  O ponto exato de uma corda bamba que está sempre prestes a arrebentar. E se mantém.

Sem como, sem porque. Se mantém.

Eu sou um berro silencioso. Um segredo em aberto. Um pecado santo.

Eu sou todas as lutas do mundo e as minhas próprias lutas, lutando entre si. Em batalhas intermináveis, doloridas, cansativas, nas quais não há sequer a possibilidade de haver vencedores. A balança não é a estabilidade, a calmaria pós-guerra. É o próprio combate.

O equilíbrio é a tranquilidade agitada de quem quer sustentar o mundo. É a mais verdadeira das farsas.

Não há paz no equilíbrio.

Há, sim, um desinteresse obsessivo e uma obsessão desinteressada pelo nada de tudo o que é pleno. O vácuo de tudo o que é cheio. A necrose de cada pedaço saudável dos corpos desequilibrados do universo.

Balança

Planta

Há de se aumentar a presença. Há sim.

Há de se ocupar o caos, a casa, os cantos dos cômodos e o comodismo. Há de se fazer incômodo.

Há de se fazer presente. De se presentear. Há de se doar.

Há muito espaço. Meu deus, quanto espaço. Há uma imensidão para se andar. E que vazia. Meu deus, que imensidão vazia.

Há de se apropriar. De se invadir. Há de se montar os acampamentos. E ficar. E protestar, gritar, ameaçar e fincar: Os pés e as bandeiras, o corpo e as crenças, o concreto e o abstrato. Tudo aqui. Deixa tudo aqui, que não há risco de se abandonar nada.

Presencia. Comparece. E vê quanta extensão. Quanto espaço, meu deus. É infinito. Quanto oxigênio em volta. Que sufoco, nossa, que sufoco. Me engasga feito espinha de peixe na garganta, esse oxigênio. Desce rasgando, feito trago em bebida barata, esse ar vazio. Me tira o fôlego.

Eu já mencionei o espaço? Há muito espaço. Me comem os pés esses quilômetros exaustivos, sem ponto de parada, sem linha de chegada, sem rede para se deitar. Me sua o corpo, repuxa os músculos e nauseia, toda essa distância.

Há de se aproximar. Aproximar tanto, tanto, até causar atrito e explodir. Explodir e ver nascer um universo. É assim que se gera o mundo, que se cria terra, que se forma a matéria.

Há de se sair do abstrato, da poeira cósmica.

Há de se construir. E se constrói é com carne, que o corpo é concreto e a presença é um chão, feito para se andar sem sapatos.

Presencia. Comparece. E reboca as paredes, renova esse ar, põe a rede de volta nos ganchos, que há de se respirar profundamente, descansando em um domingo morno.

Planta

Mariana

Eu não sei como começar a te escrever, Mariana. Tanto é que já comecei e apaguei umas três vezes.

É que tu é muito grande, Mariana. Enorme. Tu não cabe nas minhas linhas. Eu sou pequenininha, sei poucas palavras para te escrever, Mariana. Quantos dicionários seriam precisos para te traduzir?

Tu não podia ser um texto meu, Mariana. Tu tinha que ser um livro. Um livro bonito bonito e famoso, escrito por gente importante.

Que grandeza teu nome alcançou na minha vida, Mariana.

Tu foi embora há pouco. Deixou um gole de vinho na taça. O resto de um baseado. Tu foi embora há pouco, mas quem vai embora sou eu. Eu não quero ir pra longe de ti, Mariana. Eu não tinha me tocado o quanto eu não queria ir pra longe de ti, até que você chegou.

“Tu me dá consciência de mim, Mariana.”

Eu te vejo e descubro coisas sobre mim que não sabia antes. Só de te ver ali. Só de saber que você vem.

Tu foi minha guia, Mariana.

Sei lá que nova espécie de amor foi essa que a gente inventou, Mariana. Sei lá! Vai ver só vão diagnosticar no futuro. Vai ver só a gente vai saber. Sempre.

“Já reparou que quando a gente está no mesmo ambiente, forma uma terceira pessoa?”

“Aham. E que mulher!” tu me respondeu.

Obrigada, Mariana.

Até logo!

Mariana