Lidocaína

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Não me pegam as anestesias. De jeito nenhum.

E nem é como se fosse toda forte. Do contrário. Machuco demais, sangro fácil, a pressão cai, três segundos de sal embaixo da língua e já recuperou. Remédio que não faz nem cócegas, em mim já curou. O doce que ninguém sentiu, já bateu aqui faz tempo e ficou. E durou e durou.

Sinto tudo. Tudinho. Amoleço no primeiro trago, enlouqueço na primeira dose, entrego. Entrego. Deixo tudo entrar e estraçalhar. Fazer barulho. Bagunça. Até placebo deve funcionar.

Mas não me pegam as anestesias. De jeito nenhum.

É coisa simples. Restauração no dente. Uma, duas, três, quatro, cinco agulhadas. E não para. Por algum motivo o corpo – sempre aberto – não deixa o efeito entrar. Rejeita, renega.

“Nossa, você é resistente, né?”

Sou nada doutor. Tão fraquinha. Sinto tudo. Tudinho.

Só não me pegam as anestesias. De jeito nenhum.

E assim sigo. Assim o corpo pede. Deixa tudo chegar, modificar, fazer barulho, bagunça. Só não para de sentir. Tudo. Tudinho. Um corpo tão contente em ser assim fraquinho que se faz de forte, na primeira oportunidade de resistir à apatia.

Deixa doer.

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Lidocaína