Planta

Há de se aumentar a presença. Há sim.

Há de se ocupar o caos, a casa, os cantos dos cômodos e o comodismo. Há de se fazer incômodo.

Há de se fazer presente. De se presentear. Há de se doar.

Há muito espaço. Meu deus, quanto espaço. Há uma imensidão para se andar. E que vazia. Meu deus, que imensidão vazia.

Há de se apropriar. De se invadir. Há de se montar os acampamentos. E ficar. E protestar, gritar, ameaçar e fincar: Os pés e as bandeiras, o corpo e as crenças, o concreto e o abstrato. Tudo aqui. Deixa tudo aqui, que não há risco de se abandonar nada.

Presencia. Comparece. E vê quanta extensão. Quanto espaço, meu deus. É infinito. Quanto oxigênio em volta. Que sufoco, nossa, que sufoco. Me engasga feito espinha de peixe na garganta, esse oxigênio. Desce rasgando, feito trago em bebida barata, esse ar vazio. Me tira o fôlego.

Eu já mencionei o espaço? Há muito espaço. Me comem os pés esses quilômetros exaustivos, sem ponto de parada, sem linha de chegada, sem rede para se deitar. Me sua o corpo, repuxa os músculos e nauseia, toda essa distância.

Há de se aproximar. Aproximar tanto, tanto, até causar atrito e explodir. Explodir e ver nascer um universo. É assim que se gera o mundo, que se cria terra, que se forma a matéria.

Há de se sair do abstrato, da poeira cósmica.

Há de se construir. E se constrói é com carne, que o corpo é concreto e a presença é um chão, feito para se andar sem sapatos.

Presencia. Comparece. E reboca as paredes, renova esse ar, põe a rede de volta nos ganchos, que há de se respirar profundamente, descansando em um domingo morno.

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Planta

Mariana

Eu não sei como começar a te escrever, Mariana. Tanto é que já comecei e apaguei umas três vezes.

É que tu é muito grande, Mariana. Enorme. Tu não cabe nas minhas linhas. Eu sou pequenininha, sei poucas palavras para te escrever, Mariana. Quantos dicionários seriam precisos para te traduzir?

Tu não podia ser um texto meu, Mariana. Tu tinha que ser um livro. Um livro bonito bonito e famoso, escrito por gente importante.

Que grandeza teu nome alcançou na minha vida, Mariana.

Tu foi embora há pouco. Deixou um gole de vinho na taça. O resto de um baseado. Tu foi embora há pouco, mas quem vai embora sou eu. Eu não quero ir pra longe de ti, Mariana. Eu não tinha me tocado o quanto eu não queria ir pra longe de ti, até que você chegou.

“Tu me dá consciência de mim, Mariana.”

Eu te vejo e descubro coisas sobre mim que não sabia antes. Só de te ver ali. Só de saber que você vem.

Tu foi minha guia, Mariana.

Sei lá que nova espécie de amor foi essa que a gente inventou, Mariana. Sei lá! Vai ver só vão diagnosticar no futuro. Vai ver só a gente vai saber. Sempre.

“Já reparou que quando a gente está no mesmo ambiente, forma uma terceira pessoa?”

“Aham. E que mulher!” tu me respondeu.

Obrigada, Mariana.

Até logo!

Mariana

Dou a lua a mim*

Escorro em lua nova. Transbordo.

Deixo a beleza da lua cheia para ela. Não a tiro. Inteira. Brilhando. Pronta para ser vista, exaltada, admirada. Não a menosprezo. Mas eu, particularmente, sou lua nova.

Lua nova que, reclusa, renasce.

Me afogo em lua nova.

Acompanho-a em seu movimento silencioso. Recupero as energias. Sinto, sangro, sofro e saturo. Até começar a brotar pelas beiradas. Até quebrar parte a parte o casulo que me envolve.

Reabro-me em lua nova.

Lanço voo. Rumo ao céu, mas com cheiro de terra. De raiz, brotinho. Tudo ainda sem forma. Sem brilho, sem cheiro, sem flor. Tudo ainda meio cru, desajeitado, sombrio.

A parte mais viva da lua. O início. O parto.

Desperto em lua nova.

Deixo o breu tomar conta. Os olhos alheios, fascinados em busca da lua cheia, pouco veem. Sentem apenas a ausência, tateiam a escuridão. Enquanto eu, dou a luz a mim.

 

*O título desse texto era apenas “lua nova”, mas ao escrever a última frase dele, cometi o ato falho de trocar a palavra “luz” por “lua”. Achei simbólico demais para deixar passar.

Dou a lua a mim*

Tribunal

Eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada. É esse o efeito de um sábado chuvoso em casa: Enviar uma carta para uma ex-namorada. O calendário tem um efeito importante sobre nós. Eu dificilmente enviaria essa carta em uma terça comum. Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

É engraçada a forma como estabelecemos nossa própria ordem. De repente existem milhares de regras, que aparentemente ninguém colocou, mas estão lá. Para nós, não há dúvida de que estão lá.

Escrevemos com nossas inseguranças e nossa pouca experiência essa bíblia. E a guardamos a sete chaves. Acatamos diária e quase que inconscientemente as ordens ali expressas. Claramente ditadas por uma divindade interior de caráter extremamente patriarcal. Dez, vinte, trezentos mandamentos nos martelando a todo momento.

Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

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“Eu me dou ótimos conselhos, mas eu raramente os sigo.” Alice

Também já revi muitas conversas, comi mais do que deveria, ouvi músicas que achava que já tinha superado e procurei no google sobre como cuidar de gérberas.

(Acho que a parte de procurar no google sobre como cuidar de gérberas é o maior dos pecados. Mas eu realmente gosto muito de gérberas.)

Nós vamos achando espaços, dentro de nossas próprias regras, para burlá-las.

Atenuantes. Há de haver lugar para os atenuantes.

Advogamos em prol do nosso id. Buscamos as falhas, os pequenos deslizes, as exceções expressas e não expressas na lei para que possamos jogá-las em nossa própria cara. Protestar. Com faixas, cartazes e gritos ensaiados vamos as ruas em defesa de nossas próprias fraquezas. Na função de libertá-las. De permitir aos nossos pecados que existam e se façam visíveis.

O único problema é que, chegando lá, bem em cima da hora de apresentar nossa defesa, nos deparamos com eles. Os juízes. Os únicos que podem determinar a pena que devemos ou não pegar.

E lá estão eles. Sendo nós mesmos. Estando dentro de nós.

Bem mais fácil não ter que tomar partido diante de nossos próprios processos. Mas temos. Costumamos ser cobrados, hora ou outra, pelo destino, a nos posicionarmos. E o martelo em nossas mãos costuma nos tornar cruéis em relação a nós mesmos. Um poder que nos toma conta. E nos faz colocar mais um anexo em nossa constituição. Ou reforçar uma já existente. Assegurar nossa pena.

Não fossem esses arruaceiros dos atenuantes. Dos direitos humanos. Os anarquistas do erro, do pecado, dos sábados de chuva em casa. Das cartas que escrevemos. Não fossem eles estaríamos tranquilos, dormindo sob a serenidade de nossos acertos, sabendo exatamente como será o dia de amanhã.

Mas, afinal, é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

Tribunal

Dois discos que têm feito sentido ultimamente

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Dois discos têm feito bastante sentido ultimamente. Acho engraçado que os dois estejam fazendo sentido assim, simultaneamente, sendo que são tão diferentes. Trabalhos diferentes que me causam sensações diferentes, mas que – de alguma forma – estão fazendo sentido juntos.

(Tenho pensado muito nessa coisa de “fazer sentido ultimamente” e da importância de se lembrar não só das coisas, mas do sentido que elas faziam em um determinado momento.)

De qualquer forma, vou falar sobre dois discos que têm feito sentido. O primeiro é Our Endless Numbered Days. Iron & Wine.

Vou começar contando que a primeira música que ouvi desse disco me foi enviada pela – já citada nas entrelinhas desse blog – incrível Mariana. Como então ele poderia não fazer sentido? É claro, minha faixa favorita do disco. Claro né, Mariana.

Tu sabias que essa seria minha faixa favorita do disco.

E faz sentido de um jeito profundamente triste, melancólico e pacífico. Ironicamente um ponto de paz profundamente ressentido. É invasivo. Iron & Wine é invasivo.

Mas faz sentido.

chinese-manO outro disco que tem feito sentido é Racing With The SunChinese Man. É claro, esse também começou com boas lembranças. Gente boa recomendando em momento bom.

O que me faz pensar que um som nunca é só um som. A gente dificilmente gosta do som pelo som. A gente gosta da memória do som, da história por traz do som, da vida do som. A arte traz consigo seu próprio contexto, como um universo próprio.

Mas Chinese Man faz sentido de uma forma muito diferente.

Tem essa vibe da minha cidade atual e toda a vida que tem existido aqui. Tudo que há ao meu redor. De bom, de gostoso, de leve. E de pesado. Tem o pesado também. E tudo aparece nesse disco.

Esse toca minha energia, minha insanidade. Me movimenta. Por favor, me digam o que é Saudade, In My Room, Get Up. Como ficar ileso a esse som?

Claramente uma postagem não condizente com a url do blog.

Dois discos que têm feito sentido ultimamente

Fecham-se as cortinas

Existem muitos problemas na nossa relação. O meu maior objetivo atual é convencer-me de que eles são teus. Mais do que isso, tenho me dedicado diariamente a criar a certeza absoluta de que o problema é, de fato, você.

Seria. Não fosse o meu histórico. Lá vem ele. E vem em peso. Todos os meus relacionamentos passados ressurgem na minha mente para mostrar-me que, não só tenho sempre os mesmos problemas, como em geral eles existem mais dentro de mim do que no plano material.

(Deve, inclusive, ser chocante para você ler que “existem muitos problemas na nossa relação”, quando aparentemente eles não existem. Mas eu os crio. Repetidamente.)

Tenho outras coisas para culpar também:
– O fato de você ser homem. Essa é boa, mas me dá um certo trabalho. Já que para convencer-me dela preciso continuar ignorando o histórico, que existe para me provar que, em minhas relações com mulheres, crio precisamente os mesmos problemas.
– O meu mapa astral. Essa, tu bem sabes, é sempre minha desculpa favorita.

Então vamos lá, opção três: Meu mapa astral. Tem muito libra. E muito leão. Tu não sabes bem o que isso significa, né? Explico.

Junte aí a insegurança e o romantismo libriano com o egocentrismo leonino. Pronto. Em termos práticos basicamente o que faço é doar o melhor de mim. Mostrar o que há de mais bonito, mais forte, mais surpreendente, encantador e apaixonante. Eu quero ser apaixonante. Eu gosto de sê-lo.

E já até aceitei essa parte. Compreendi que esse é o papel que nasci para ocupar na vida das pessoas: O de ser uma lembrança boa. Eu sei que sou efêmera – e aqui entra o resto dos planetas do mapa, cheios de gêmeos – e que não duro muito. Então me dedico e movo minhas atitudes em direção a isso. A fazer de mim uma lembrança boa. Eu quero. Eu gosto de sê-lo.

O problema é que nem todo mundo é assim volátil. Tem gente que fica. Tu mesmo, já tais aí a tanto tempo. E quando me aparece gente como você, que insiste em ficar, eu perco o rumo. Eu fico cansada. Cansada de ser bonita, forte, surpreendente, encantadora e apaixonante.

Eu, fascinada com esse poder de ficar, que parece tão natural, tão inato nos outros, sinto uma vontade enorme de me deitar no teu colo e descansar. Aceitar e me entregar a tua estadia. Quero me aninhar no teu peito e – enfim – poder me revelar assim, nua, crua e não tão apaixonante. Feia, fraca e monótona.

Não me entenda mal: Amo o papel que interpreto. A protagonista de filme brasileiro. A mulher livre, linda e louca. Não pretendo deixá-lo. Ele é também parte de mim. É o que me dá forças, o que me faz me amar. O que me faz ser amada. Inclusive por ti.

Mas tanto tempo dentro dele me cansa. E as vezes – só as vezes – eu quero mais que respirar na coxia antes de entrar em cena novamente. Eu quero te levar para o camarim e pendurar a fantasia. Eu quero tirar a maquiagem, as perucas, as falas e os gestos grandiosos. Com as olheiras, o suor o furor e a exaustão do pós-espetáculo, eu quero parar. Ser menos livre, menos linda, menos louca.

Eu quero poder ser pequenininha ao teu lado.

E te jogar na cara tudo o que há dentro de mim: Todas as palavras não ditas e os sentimentos não vividos. Bons e ruins. O meu desequilíbrio, minha fraqueza, minha falta de fé e essa profunda insegurança na qual vivo mergulhada. A beleza e o tamanho do que sinto por você. É imenso. Mas não está no roteiro te dizer. Então eu me calo.

tumblr_mkwwky12kY1s1bpino1_500Esse é o problema da nossa relação. Esse é o problema de todas as minhas relações. Eu sempre doo demais, logo de cara. E me esgoto. E me sinto sufocada por essa imagem grandiosa de mim que eu mesma criei. E não consigo sair dela.

Eu montei meu figurino, fotografia e roteiro. Garanti que permanecessem intactos durante todo o espetáculo. Mas as cortinas já fecharam e tu não foi embora.

Tu ficastes. E eu não sei mais o que faço em cima desse palco.

Fecham-se as cortinas

Desprosear-me

Dia cheio, noite vazia
E de repente me encontrei
Em poesia

Uma dor tão grande
Um oco tão cheio
O céu e o inferno dos amantes
O ódio e o amor de vênus
E seus entremeios

Dia feio, noite fria
E eu exausta de tanto pensar
Procurar

De tantas respostas
Me invadiram mais perguntas
Questões tortas
Me arrastaram por caminhos
De taças quebradas
E vinhos

Me encontrei em poesia
Depois de buscar, fugir, me entregar, reagir
Li

Senti

E me afoguei em toda essa confusão
Deixei a água me dominar
A lua mudar minha maré

Nas minhas ondas, cheias de propulsão
Quis eu mesma velejar
Quis andar a pé

Um medo tão forte
Mantendo distante
Vivendo a própria morte
Racionalizando
Indo adiante

Me encontrei em poesia
Me descobri

Não há nada melhor para se fazer com sentimentos
Do que sentir

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Desprosear-me

Terra firme

Eu pisei na areia. Dois meses atrás eu pisei na areia. E fiquei.

Eu pisei na areia e decidi que ali seria minha terra firme. Que coisa louca essa, de gente que passou a vida inteira voando, cheia de solo, concreto, ali pertinho, logo abaixo. Mas só decide pisar no chão quando chega na areia.

Fiz da areia minha terra firme.

Só ela, assim, instável como eu, me deu vontade de ficar. Só ela me solidificou. Essa areia que voa, leva e afunda. Essa areia é meu concreto.

E a gente já ficou muito longe. Muito tempo. Deixa eu te fazer de solo. Deixa eu construir aqui, no meio de toda essa areia fofa, o que há de mais sólido na minha vida. E a gente vai passar a vida assim. Juntas, olhando o mar. Eu e a areia.

Me engole. Me movediça.

Que aqui eu fico. E piso forte, firme, direta. Com a certeza de quem quer ficar. E olha que eu não sou de ficar. Eu vou. Só não vou quando já estou em casa.

Estou em casa.

Terra firme

Sobre solidões

“s.f. Estado de quem está só, retirado do mundo; isolamento: os encantos da solidão.
Ermo, lugar despovoado e não frequentado pelas pessoas: retirar-se na solidão.
Isolamento moral, interiorização: a solidão do espírito.”

Eu poderia escrever um livro todo sobre a solidão. Não é de hoje minha relação profunda com essa palavra, meu amor e minha dedicação à ela. Porque, me perdoem aqui o excesso de pós-modernidade, mas para mim poucas coisas são certas sobre a solidão. A primeira é que ela é muitas. É plural. Cada um estabelece uma relação com a solidão.

A segunda é que ela dá medo. Mesmo para aqueles que, como eu, estabelecem com ela uma relação positiva. Nutrem um certo afeto. A solidão é universalmente assustadora.

Mas voltando a pluralidade: Solidões. Ironicamente, embora essa seja a palavra mais sozinha da língua portuguesa, não há uma só solidão. Eu, desde que a aceitei em minha vida, tenho conhecido as mais diversas solidões. Sobre uma delas eu falei aqui.

Uma outra eu tenho experimentado agora. Essa se dá simultaneamente em um plano prático, material e racional, filosófico. Tenho gostado de chamá-la de solidão necessária (porque, de fato, ela é).

Diferente da solidão de quem está cercado e se sente sozinho, essa solidão é mais física, mais palpável. É um estado de reclusão. Dá para chamar de casulo também, se assim preferir. Aliás, o casulo é uma metáfora fantástica.

Porque lá estamos nós, sozinhos, em um aparente isolamento, uma superficialidade estática. E nos debatendo. Tanta coisa acontece dentro de um casulo que acho até meio impossível descrever. É a maior das transformações. Um excesso de movimento e trabalho arquitetônico contínuo de quem está prestes a voar.

Solidão necessária. Bem como passageira. Tão temporária quanto inevitável.

É como se dispor a entrar em um labirinto e, sem pressa, se dedicar a atravessá-lo. Devagar. Conhecendo ponto a ponto. Voltando. Refazendo as estratégias. Por saber que está lá, do outro lado, o lugar no qual se deseja chegar. E ficar parado no começo, mesmo que cercado, mesmo que envolvido, sem solidão alguma, não nos leva magicamente a lugar algum.

Solidão de quem quer se encontrar.

E com essa é preciso estabelecer uma boa relação. Abraçá-la. E olha que, essa solidão – em especial – é assustadora. Talvez ainda mais do que as outras. Mas nós precisamos aceitá-la. Se possível até aprender a amar um pouquinho esse estágio.

Porque uma vez que ela está aqui já significa não ser mais possível voltar ao outro estágio, o inicial. Essa história bem platônica, bem Mito da Caverna mesmo. Ele está aqui. Essa solidão está aqui e – dolorosamente ou não – é ela que vai nos levar ao norte.

Nos agarremos nesta bússola.

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Sobre solidões

Desconfio

Desconfio da trivialidade
Da magia
Do poder
Da cidade

Desconfio do excesso
que falta

Falta tempo
falta recesso

Falta empatia nos sorrisos
Falta verdade
profundidade

Sobra uma carência
que invade
adentra
abusa

Desconfio
da sapiência
da juventude confusa

Falta chão
Terra

Sobra perigo
falta abrigo

Sobra uma ilusão
sincera
discreta

– Eu me dou o direito de desconfiar
Decreta

Desconfio