Balança

Eu sou uma constante busca pelo equilíbrio. O centro. A moderação vertical. A balança.

E ainda me julgam harmônica. Rá! Ainda me cobram a paz de espírito, a plenitude exuberante dos centrados. Rá! Pouco sabem sobre o equilíbrio, os que o desejam pleno. Pouco sabem sobre os ferros e o peso dos pratos da balança. A força e a dor explosivas de se ficar ali, parada, estática, buscando insistentemente sustentar de forma igualitária todo o peso recebido.

Não há paz no equilíbrio.

Há, sim, um desejável controle e um incontrolável desejo de tudo. Tudo.

O equilíbrio é essa fome de mundo. De paz e de guerra, de limpo e de sujo, de amor e de ódio. O equilíbrio é nada menos do que uma fusão de excessos. Uma perdição de opostos, um cabo-de-guerra.  O ponto exato de uma corda bamba que está sempre prestes a arrebentar. E se mantém.

Sem como, sem porque. Se mantém.

Eu sou um berro silencioso. Um segredo em aberto. Um pecado santo.

Eu sou todas as lutas do mundo e as minhas próprias lutas, lutando entre si. Em batalhas intermináveis, doloridas, cansativas, nas quais não há sequer a possibilidade de haver vencedores. A balança não é a estabilidade, a calmaria pós-guerra. É o próprio combate.

O equilíbrio é a tranquilidade agitada de quem quer sustentar o mundo. É a mais verdadeira das farsas.

Não há paz no equilíbrio.

Há, sim, um desinteresse obsessivo e uma obsessão desinteressada pelo nada de tudo o que é pleno. O vácuo de tudo o que é cheio. A necrose de cada pedaço saudável dos corpos desequilibrados do universo.

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