Planta

Há de se aumentar a presença. Há sim.

Há de se ocupar o caos, a casa, os cantos dos cômodos e o comodismo. Há de se fazer incômodo.

Há de se fazer presente. De se presentear. Há de se doar.

Há muito espaço. Meu deus, quanto espaço. Há uma imensidão para se andar. E que vazia. Meu deus, que imensidão vazia.

Há de se apropriar. De se invadir. Há de se montar os acampamentos. E ficar. E protestar, gritar, ameaçar e fincar: Os pés e as bandeiras, o corpo e as crenças, o concreto e o abstrato. Tudo aqui. Deixa tudo aqui, que não há risco de se abandonar nada.

Presencia. Comparece. E vê quanta extensão. Quanto espaço, meu deus. É infinito. Quanto oxigênio em volta. Que sufoco, nossa, que sufoco. Me engasga feito espinha de peixe na garganta, esse oxigênio. Desce rasgando, feito trago em bebida barata, esse ar vazio. Me tira o fôlego.

Eu já mencionei o espaço? Há muito espaço. Me comem os pés esses quilômetros exaustivos, sem ponto de parada, sem linha de chegada, sem rede para se deitar. Me sua o corpo, repuxa os músculos e nauseia, toda essa distância.

Há de se aproximar. Aproximar tanto, tanto, até causar atrito e explodir. Explodir e ver nascer um universo. É assim que se gera o mundo, que se cria terra, que se forma a matéria.

Há de se sair do abstrato, da poeira cósmica.

Há de se construir. E se constrói é com carne, que o corpo é concreto e a presença é um chão, feito para se andar sem sapatos.

Presencia. Comparece. E reboca as paredes, renova esse ar, põe a rede de volta nos ganchos, que há de se respirar profundamente, descansando em um domingo morno.

Planta

Tribunal

Eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada. É esse o efeito de um sábado chuvoso em casa: Enviar uma carta para uma ex-namorada. O calendário tem um efeito importante sobre nós. Eu dificilmente enviaria essa carta em uma terça comum. Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

É engraçada a forma como estabelecemos nossa própria ordem. De repente existem milhares de regras, que aparentemente ninguém colocou, mas estão lá. Para nós, não há dúvida de que estão lá.

Escrevemos com nossas inseguranças e nossa pouca experiência essa bíblia. E a guardamos a sete chaves. Acatamos diária e quase que inconscientemente as ordens ali expressas. Claramente ditadas por uma divindade interior de caráter extremamente patriarcal. Dez, vinte, trezentos mandamentos nos martelando a todo momento.

Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

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“Eu me dou ótimos conselhos, mas eu raramente os sigo.” Alice

Também já revi muitas conversas, comi mais do que deveria, ouvi músicas que achava que já tinha superado e procurei no google sobre como cuidar de gérberas.

(Acho que a parte de procurar no google sobre como cuidar de gérberas é o maior dos pecados. Mas eu realmente gosto muito de gérberas.)

Nós vamos achando espaços, dentro de nossas próprias regras, para burlá-las.

Atenuantes. Há de haver lugar para os atenuantes.

Advogamos em prol do nosso id. Buscamos as falhas, os pequenos deslizes, as exceções expressas e não expressas na lei para que possamos jogá-las em nossa própria cara. Protestar. Com faixas, cartazes e gritos ensaiados vamos as ruas em defesa de nossas próprias fraquezas. Na função de libertá-las. De permitir aos nossos pecados que existam e se façam visíveis.

O único problema é que, chegando lá, bem em cima da hora de apresentar nossa defesa, nos deparamos com eles. Os juízes. Os únicos que podem determinar a pena que devemos ou não pegar.

E lá estão eles. Sendo nós mesmos. Estando dentro de nós.

Bem mais fácil não ter que tomar partido diante de nossos próprios processos. Mas temos. Costumamos ser cobrados, hora ou outra, pelo destino, a nos posicionarmos. E o martelo em nossas mãos costuma nos tornar cruéis em relação a nós mesmos. Um poder que nos toma conta. E nos faz colocar mais um anexo em nossa constituição. Ou reforçar uma já existente. Assegurar nossa pena.

Não fossem esses arruaceiros dos atenuantes. Dos direitos humanos. Os anarquistas do erro, do pecado, dos sábados de chuva em casa. Das cartas que escrevemos. Não fossem eles estaríamos tranquilos, dormindo sob a serenidade de nossos acertos, sabendo exatamente como será o dia de amanhã.

Mas, afinal, é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

Tribunal

Fecham-se as cortinas

Existem muitos problemas na nossa relação. O meu maior objetivo atual é convencer-me de que eles são teus. Mais do que isso, tenho me dedicado diariamente a criar a certeza absoluta de que o problema é, de fato, você.

Seria. Não fosse o meu histórico. Lá vem ele. E vem em peso. Todos os meus relacionamentos passados ressurgem na minha mente para mostrar-me que, não só tenho sempre os mesmos problemas, como em geral eles existem mais dentro de mim do que no plano material.

(Deve, inclusive, ser chocante para você ler que “existem muitos problemas na nossa relação”, quando aparentemente eles não existem. Mas eu os crio. Repetidamente.)

Tenho outras coisas para culpar também:
– O fato de você ser homem. Essa é boa, mas me dá um certo trabalho. Já que para convencer-me dela preciso continuar ignorando o histórico, que existe para me provar que, em minhas relações com mulheres, crio precisamente os mesmos problemas.
– O meu mapa astral. Essa, tu bem sabes, é sempre minha desculpa favorita.

Então vamos lá, opção três: Meu mapa astral. Tem muito libra. E muito leão. Tu não sabes bem o que isso significa, né? Explico.

Junte aí a insegurança e o romantismo libriano com o egocentrismo leonino. Pronto. Em termos práticos basicamente o que faço é doar o melhor de mim. Mostrar o que há de mais bonito, mais forte, mais surpreendente, encantador e apaixonante. Eu quero ser apaixonante. Eu gosto de sê-lo.

E já até aceitei essa parte. Compreendi que esse é o papel que nasci para ocupar na vida das pessoas: O de ser uma lembrança boa. Eu sei que sou efêmera – e aqui entra o resto dos planetas do mapa, cheios de gêmeos – e que não duro muito. Então me dedico e movo minhas atitudes em direção a isso. A fazer de mim uma lembrança boa. Eu quero. Eu gosto de sê-lo.

O problema é que nem todo mundo é assim volátil. Tem gente que fica. Tu mesmo, já tais aí a tanto tempo. E quando me aparece gente como você, que insiste em ficar, eu perco o rumo. Eu fico cansada. Cansada de ser bonita, forte, surpreendente, encantadora e apaixonante.

Eu, fascinada com esse poder de ficar, que parece tão natural, tão inato nos outros, sinto uma vontade enorme de me deitar no teu colo e descansar. Aceitar e me entregar a tua estadia. Quero me aninhar no teu peito e – enfim – poder me revelar assim, nua, crua e não tão apaixonante. Feia, fraca e monótona.

Não me entenda mal: Amo o papel que interpreto. A protagonista de filme brasileiro. A mulher livre, linda e louca. Não pretendo deixá-lo. Ele é também parte de mim. É o que me dá forças, o que me faz me amar. O que me faz ser amada. Inclusive por ti.

Mas tanto tempo dentro dele me cansa. E as vezes – só as vezes – eu quero mais que respirar na coxia antes de entrar em cena novamente. Eu quero te levar para o camarim e pendurar a fantasia. Eu quero tirar a maquiagem, as perucas, as falas e os gestos grandiosos. Com as olheiras, o suor o furor e a exaustão do pós-espetáculo, eu quero parar. Ser menos livre, menos linda, menos louca.

Eu quero poder ser pequenininha ao teu lado.

E te jogar na cara tudo o que há dentro de mim: Todas as palavras não ditas e os sentimentos não vividos. Bons e ruins. O meu desequilíbrio, minha fraqueza, minha falta de fé e essa profunda insegurança na qual vivo mergulhada. A beleza e o tamanho do que sinto por você. É imenso. Mas não está no roteiro te dizer. Então eu me calo.

tumblr_mkwwky12kY1s1bpino1_500Esse é o problema da nossa relação. Esse é o problema de todas as minhas relações. Eu sempre doo demais, logo de cara. E me esgoto. E me sinto sufocada por essa imagem grandiosa de mim que eu mesma criei. E não consigo sair dela.

Eu montei meu figurino, fotografia e roteiro. Garanti que permanecessem intactos durante todo o espetáculo. Mas as cortinas já fecharam e tu não foi embora.

Tu ficastes. E eu não sei mais o que faço em cima desse palco.

Fecham-se as cortinas

Desprosear-me

Dia cheio, noite vazia
E de repente me encontrei
Em poesia

Uma dor tão grande
Um oco tão cheio
O céu e o inferno dos amantes
O ódio e o amor de vênus
E seus entremeios

Dia feio, noite fria
E eu exausta de tanto pensar
Procurar

De tantas respostas
Me invadiram mais perguntas
Questões tortas
Me arrastaram por caminhos
De taças quebradas
E vinhos

Me encontrei em poesia
Depois de buscar, fugir, me entregar, reagir
Li

Senti

E me afoguei em toda essa confusão
Deixei a água me dominar
A lua mudar minha maré

Nas minhas ondas, cheias de propulsão
Quis eu mesma velejar
Quis andar a pé

Um medo tão forte
Mantendo distante
Vivendo a própria morte
Racionalizando
Indo adiante

Me encontrei em poesia
Me descobri

Não há nada melhor para se fazer com sentimentos
Do que sentir

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Desprosear-me

Carta aberta

wefoundloveEu queria escrever isso free hand. Mas não tem papel nem caneta em casa. Por aí começa a carta de amor de uma pessoa fodida: Jornalista, sem papel nem caneta em casa.

Também queria escrever em inglês, fugir da prosa. Poetizar.

Bukowski.

E. E. Cummings.

Mas não tenho nem inteligência e nem talento o bastante para tal.

Assim prossegue a carta de amor de uma pessoa fodida: Sem papel, sem caneta, sem inteligência e sem talento. Não sei se mencionei, mas também não vou te mandar isso. Sem coragem.

Por sorte eu posso citar gente que provavelmente tinha tudo isso e dizer que tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo. O que, no meu caso, é verdade.

Drummond.

Some isso a umas saudades bizarras.

Saudades, por exemplo, de dividir com você a vida que não tenho. Saudades sem nostalgia. Umas saudades que não dão vontade de voltar, reviver, regredir. Saudades de criar novas saudades ao teu lado. Saudades dos planos e das possibilidades que estão lentamente se apagando em mim.

O gosto da espera. Tão forte, tão doce, tão intenso. Que intoxica.

Gastrite.

Uma dor intensa, repentina. Um embrulho no estômago. Causados justamente pela falta de tudo isso: do intenso, do repentino, dos embrulhos da intoxicação que vivemos juntos. Saudades do veneno bem acompanhado. Grudado. Aninhado.

Todas as misturas nocivas do mundo. Químicas, físicas, psicológicas. Todos os perigos materiais e emocionais em um mesmo momento. Em dois corpos. E nunca a vida pareceu tão segura.

Os dias surreais que tornam tudo tão mais palpável.

A nossa realidade tão utópica.

E esse eterno cansaço em esperar pelos dias passados. Essa desesperança ao olhar para trás e ver apenas as vontades futuras. Tão reais que são inatingíveis. O medo do fade out. A perda da memória. A minha clássica desistência.

Este é para ser o fim dessa carta. E eu pensei em diversas formas de fazê-lo.

Mas parece que somos mesmo um eterno meio,

Carta aberta