Leão de Chácara

baa6d6bb65a902ca94d4e372c106e346É para olhar cada passinho, viu? Conferir até os pés, para ver se estão andando em linha reta. Não deixa passar, senhor, não deixa passar. Revista. Revista antes de ir para qualquer lugar. Sabe que as vezes sobra, sempre sobra. Um detalhe que ficou para trás, jogado no fundo da bolsa. Ficou um bilhete, um lembrete, um cheiro ou anseio. Ficou ali e não pode, não pode não. Não deixa passar.

É para vigiar bem, viu? Olhar o celular. As vezes ele quer passar. Uma ligação, uma mensagem, um pedido de socorro, um grito de saudade. As vezes vai querer passar. Não pode. Confere os telefones, telegramas e sinais de fumaça também. Não deixa passar.

Apreende tudo. Olha bem se não deixou nem um sinal, nem uma chance. A chance é um grande perigo. A possibilidade é um buraco imenso, obscuro, cujo fundo ninguém sabe necessariamente onde vai dar. Mas deve ser de concreto. Provavelmente é de concreto. Você sabe, é concreto. Dá para se esborrachar.

Vê se não tem nenhuma dessas pelo caminho. Coberta pela grama do acaso, pelas flores da inocência, as folhas da confiança, o mato da fraqueza. Confere em baixo de tudo. E tapa esse buraco. Tapa mesmo, sem dó, nem madeira. Com o concreto da frieza. Faz fortaleza. Pavimenta com orgulho ou o andar é caminho certo para se esborrachar. Dá para se esborrachar.

Leão de Chácara. Observa cada cantinho. Dá uma olhada nas esquinas, no escuro das noitadas, nas bebidas espalhadas, nas portas, buracos e brechas que podem sobrar. Se for preciso barra, confisca, cerca, aprisiona. Aprisiona mesmo. Sentimento nenhum pode passar. Dor nenhuma pode transbordar. Cerceia. Mantém. Retém.

Confere os dedos, os olhos, as cartas, e-mails, suspiros e palavras que podem fraquejar. Não deixa passar.

Colorir, só dentro das linhas.

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Leão de Chácara

Lixo

Veja bem que loucura, há algum tempo atrás escrevi esse texto e, realmente, estava vivendo uma fase com muitas gavetas na época. Hoje falo de lixo, porque tenho andado mais próxima dessa ideia, Acredito que isso ainda vá evoluir mais (oremos).

Mas descobrir o lixo foi algo maravilhoso para mim. E a ideia do lixo tem chegado a mim de diversas formas. “Joga fora”. “Abandona”. Me falam tantos, de tantos lugares. Que tive que ouvir, né? É difícil demais. A gente ignora durante um tempo. Mas tem uma hora que tem que escutar.

E não é que a ideia foi boa? Rapaz. E foi.

Quando veio, veio inesperada. Veio assim da amiga de uma amiga que sem querer entrou na minha casa. E mudou minha vida em duas frases, minha gente. Olhou a minha louça não lavada, o chão sem varrer, a roupa no tanque e a cara de cansada.

Como pode? A casa tão bagunçada e a gente tão cansada? A bagunça é cansativa, vixe. Exaustiva. Ela te suga para dentro dela. Você se sente lá, mais um serzinho, miudinho em meio a tanta coisa acontecendo. Não dá nem pra ver o que é bom e o que é ruim, o que ainda presta e o que não, na bagunça.

Tudo é muito confuso. Nossa. Facinho de se perder.

E a amiga da amiga que entrou na minha casa me olhou e disse: Lava essa louça. Disse com uma doçura que só ela tinha. Mas disse: Lava essa louça. Eu respondi que estava muito difícil, que eu não sabia por onde começar.

Sabe, quando tudo parece dolorido demais? Cada passo parece a toa, em vão. Cansativo, nossa. Exaustivo.

E realmente, na bagunça. a gente não sabe por onde começar.

Ela me disse a segunda frase: Joga fora tudo o que você não usa mais. Ai, deliciosas! Deliciosas essas palavras! Mágicas! Joga fora tudo o que você não usa mais.

Quão grata eu sou, por quem entrou na minha casa e me mandou lavar a louça e jogar fora tudo o que eu não usava mais. Desde então tenho feito isso. Me preocupado com essa limpeza e com remover o excesso.

Aprendi aí que, muitas vezes, a bagunça é só excesso. Parece uma zona, mas só tem coisa demais. Fica muito mais fácil organizar esvaziando o espaço.

E vê bem: Dá pra jogar uma porrada de coisa fora. Roupa, papel, conta, cabelo, bilhete, passagem, dúvida, rancor, amor antigo, vício, mania, ego, nossa. Muita coisa. Nossa. Tem muita coisa sobrando. Daí não tem espaço que dê conta mesmo. E sufoca. Sufoca sim.

Tem gente que explode também, mas olha só, ainda é questão de muito em pouco espaço.

Dá para trabalhar com o espaço que a gente tem. Esvaziar a gaveta, o armário, o peito, o tempo, a mente, a casa, a alma, a pia e a pele. Dá para colocar ali só o proveitoso. Joga fora tudo o que você não usa mais.

Desde então comecei a lavar a louça. Também tenho andado por aí me despindo.

Lixo

Dois discos que têm feito sentido ultimamente

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Dois discos têm feito bastante sentido ultimamente. Acho engraçado que os dois estejam fazendo sentido assim, simultaneamente, sendo que são tão diferentes. Trabalhos diferentes que me causam sensações diferentes, mas que – de alguma forma – estão fazendo sentido juntos.

(Tenho pensado muito nessa coisa de “fazer sentido ultimamente” e da importância de se lembrar não só das coisas, mas do sentido que elas faziam em um determinado momento.)

De qualquer forma, vou falar sobre dois discos que têm feito sentido. O primeiro é Our Endless Numbered Days. Iron & Wine.

Vou começar contando que a primeira música que ouvi desse disco me foi enviada pela – já citada nas entrelinhas desse blog – incrível Mariana. Como então ele poderia não fazer sentido? É claro, minha faixa favorita do disco. Claro né, Mariana.

Tu sabias que essa seria minha faixa favorita do disco.

E faz sentido de um jeito profundamente triste, melancólico e pacífico. Ironicamente um ponto de paz profundamente ressentido. É invasivo. Iron & Wine é invasivo.

Mas faz sentido.

chinese-manO outro disco que tem feito sentido é Racing With The SunChinese Man. É claro, esse também começou com boas lembranças. Gente boa recomendando em momento bom.

O que me faz pensar que um som nunca é só um som. A gente dificilmente gosta do som pelo som. A gente gosta da memória do som, da história por traz do som, da vida do som. A arte traz consigo seu próprio contexto, como um universo próprio.

Mas Chinese Man faz sentido de uma forma muito diferente.

Tem essa vibe da minha cidade atual e toda a vida que tem existido aqui. Tudo que há ao meu redor. De bom, de gostoso, de leve. E de pesado. Tem o pesado também. E tudo aparece nesse disco.

Esse toca minha energia, minha insanidade. Me movimenta. Por favor, me digam o que é Saudade, In My Room, Get Up. Como ficar ileso a esse som?

Claramente uma postagem não condizente com a url do blog.

Dois discos que têm feito sentido ultimamente

Desprosear-me

Dia cheio, noite vazia
E de repente me encontrei
Em poesia

Uma dor tão grande
Um oco tão cheio
O céu e o inferno dos amantes
O ódio e o amor de vênus
E seus entremeios

Dia feio, noite fria
E eu exausta de tanto pensar
Procurar

De tantas respostas
Me invadiram mais perguntas
Questões tortas
Me arrastaram por caminhos
De taças quebradas
E vinhos

Me encontrei em poesia
Depois de buscar, fugir, me entregar, reagir
Li

Senti

E me afoguei em toda essa confusão
Deixei a água me dominar
A lua mudar minha maré

Nas minhas ondas, cheias de propulsão
Quis eu mesma velejar
Quis andar a pé

Um medo tão forte
Mantendo distante
Vivendo a própria morte
Racionalizando
Indo adiante

Me encontrei em poesia
Me descobri

Não há nada melhor para se fazer com sentimentos
Do que sentir

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Desprosear-me

Let’s live this dead end town

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We are such a mess. Não há nada em nós que não seja assim. Bagunçado. Ridículo. Nós somos uma bagunça ridícula.

Nós somos corações partidos, autoestima baixa, contas a pagar, utopias, depressões, indecisões e essa enorme vontade de fugir. Nós somos o medo da morte. E a vontade da morte. Nós somos esse eterno suicídio incompleto.

E eu choro com você. Eu choro por você.

Eu choro porque, de alguma forma, é incrível como no meio dessa infelicidade toda a gente se encontrou. E não solucionamos porra nenhuma na vida um do outro. Além do fato de termos um ao outro.

E continuamos aqui. Perdidos, fodidos. Tanto que só a gente sabe.

Eu choro porque é incrível, em meio a isso tudo, se dar conta de uma sinceridade visceral – a qual só a tristeza é capaz de produzir – que consegue ser maior que tudo isso.

Um dos pedaços mais honestos de mim – e você sabe que tenho muitos pedaços – deixo com você. Em cada abraço. Não há nada mais sincero do que a dor que partilhamos um com o outro. Você é o meu pedaço mais obscuro. Você é o meu segredo mais público. Você é meu espaço seguro.

Nós compartilhamos a miséria. Nós dividimos toda destruição que há dentro de nós um com o outro. E é por isso que sorrimos tanto juntos. Porque cara-a-cara com tantos destroços, só dá para pensar em construção.

Construção real. Feita a base dessa argila torta que somos. Porque é só nesse apoio que não corremos risco de desmoronar.

You’re my best friend and we’re dancing in a world alone.

Let’s live this dead end town