Mariana

Eu não sei como começar a te escrever, Mariana. Tanto é que já comecei e apaguei umas três vezes.

É que tu é muito grande, Mariana. Enorme. Tu não cabe nas minhas linhas. Eu sou pequenininha, sei poucas palavras para te escrever, Mariana. Quantos dicionários seriam precisos para te traduzir?

Tu não podia ser um texto meu, Mariana. Tu tinha que ser um livro. Um livro bonito bonito e famoso, escrito por gente importante.

Que grandeza teu nome alcançou na minha vida, Mariana.

Tu foi embora há pouco. Deixou um gole de vinho na taça. O resto de um baseado. Tu foi embora há pouco, mas quem vai embora sou eu. Eu não quero ir pra longe de ti, Mariana. Eu não tinha me tocado o quanto eu não queria ir pra longe de ti, até que você chegou.

“Tu me dá consciência de mim, Mariana.”

Eu te vejo e descubro coisas sobre mim que não sabia antes. Só de te ver ali. Só de saber que você vem.

Tu foi minha guia, Mariana.

Sei lá que nova espécie de amor foi essa que a gente inventou, Mariana. Sei lá! Vai ver só vão diagnosticar no futuro. Vai ver só a gente vai saber. Sempre.

“Já reparou que quando a gente está no mesmo ambiente, forma uma terceira pessoa?”

“Aham. E que mulher!” tu me respondeu.

Obrigada, Mariana.

Até logo!

Mariana

Terra firme

Eu pisei na areia. Dois meses atrás eu pisei na areia. E fiquei.

Eu pisei na areia e decidi que ali seria minha terra firme. Que coisa louca essa, de gente que passou a vida inteira voando, cheia de solo, concreto, ali pertinho, logo abaixo. Mas só decide pisar no chão quando chega na areia.

Fiz da areia minha terra firme.

Só ela, assim, instável como eu, me deu vontade de ficar. Só ela me solidificou. Essa areia que voa, leva e afunda. Essa areia é meu concreto.

E a gente já ficou muito longe. Muito tempo. Deixa eu te fazer de solo. Deixa eu construir aqui, no meio de toda essa areia fofa, o que há de mais sólido na minha vida. E a gente vai passar a vida assim. Juntas, olhando o mar. Eu e a areia.

Me engole. Me movediça.

Que aqui eu fico. E piso forte, firme, direta. Com a certeza de quem quer ficar. E olha que eu não sou de ficar. Eu vou. Só não vou quando já estou em casa.

Estou em casa.

Terra firme

Sobre solidões

“s.f. Estado de quem está só, retirado do mundo; isolamento: os encantos da solidão.
Ermo, lugar despovoado e não frequentado pelas pessoas: retirar-se na solidão.
Isolamento moral, interiorização: a solidão do espírito.”

Eu poderia escrever um livro todo sobre a solidão. Não é de hoje minha relação profunda com essa palavra, meu amor e minha dedicação à ela. Porque, me perdoem aqui o excesso de pós-modernidade, mas para mim poucas coisas são certas sobre a solidão. A primeira é que ela é muitas. É plural. Cada um estabelece uma relação com a solidão.

A segunda é que ela dá medo. Mesmo para aqueles que, como eu, estabelecem com ela uma relação positiva. Nutrem um certo afeto. A solidão é universalmente assustadora.

Mas voltando a pluralidade: Solidões. Ironicamente, embora essa seja a palavra mais sozinha da língua portuguesa, não há uma só solidão. Eu, desde que a aceitei em minha vida, tenho conhecido as mais diversas solidões. Sobre uma delas eu falei aqui.

Uma outra eu tenho experimentado agora. Essa se dá simultaneamente em um plano prático, material e racional, filosófico. Tenho gostado de chamá-la de solidão necessária (porque, de fato, ela é).

Diferente da solidão de quem está cercado e se sente sozinho, essa solidão é mais física, mais palpável. É um estado de reclusão. Dá para chamar de casulo também, se assim preferir. Aliás, o casulo é uma metáfora fantástica.

Porque lá estamos nós, sozinhos, em um aparente isolamento, uma superficialidade estática. E nos debatendo. Tanta coisa acontece dentro de um casulo que acho até meio impossível descrever. É a maior das transformações. Um excesso de movimento e trabalho arquitetônico contínuo de quem está prestes a voar.

Solidão necessária. Bem como passageira. Tão temporária quanto inevitável.

É como se dispor a entrar em um labirinto e, sem pressa, se dedicar a atravessá-lo. Devagar. Conhecendo ponto a ponto. Voltando. Refazendo as estratégias. Por saber que está lá, do outro lado, o lugar no qual se deseja chegar. E ficar parado no começo, mesmo que cercado, mesmo que envolvido, sem solidão alguma, não nos leva magicamente a lugar algum.

Solidão de quem quer se encontrar.

E com essa é preciso estabelecer uma boa relação. Abraçá-la. E olha que, essa solidão – em especial – é assustadora. Talvez ainda mais do que as outras. Mas nós precisamos aceitá-la. Se possível até aprender a amar um pouquinho esse estágio.

Porque uma vez que ela está aqui já significa não ser mais possível voltar ao outro estágio, o inicial. Essa história bem platônica, bem Mito da Caverna mesmo. Ele está aqui. Essa solidão está aqui e – dolorosamente ou não – é ela que vai nos levar ao norte.

Nos agarremos nesta bússola.

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Sobre solidões

Quanto falta para enlouquecer?

Tem muito ar no meu mapa astral. Me falta fogo. Tem muito raciocínio, muita utopia, muita viagem. Tendo em vista a quantidade de heresia que há dentro de mim, me falta pecado.

Ps. Deve ser por isso que escrevo tanto. Para começar a exorcizar.

Cerca de seis anos atrás eu viajei com a escola em uma excursão para assistir O Fantasma da Ópera em São Paulo. Na época eu ainda era muito apegada ao meu pai e liguei para ele de lá. Só conseguimos nos falar quando eu estava já com as malas prontas para voltar para Maringá. E a novidade foi: Ele estava em São Paulo.

Eu queria pegar todas aquelas malas ali prontas e ir até ele. Encontrá-lo, abraçá-lo e passar a noite conversando com ele. Contando sobre como estava a minha vida, o que eu – prestes a prestar vestibular – estava pensando em fazer, desabafando sobre o meu último caso de amor que não deu certo, sendo abraçada por ele. Eu queria ter ido até o meu pai. Mas não fui. Peguei minhas malas, entrei no ônibus da excursão do colégio e fui embora.

Nesse dia foi que a pergunta surgiu. E não foi embora desde então.  Por que não? O que me impedia? Quando é que a tal coragem, que eu tanto almejo, vai chegar? O que me falta para enlouquecer? Para ser insana o bastante a ponto de fazer as coisas que realmente quero? Por que a gente não enlouquece mais? Qual é o start?

Vou ressaltar que tenho muito ar no meu signo.

Daí é claro que racionalizei isso também. Se é ter o dinheiro, a independência ou só a coragem mesmo. Se é um – 01 – evento que nos enlouquece ou se é uma soma. Quanto falta para enlouquecer? Será que, quantitativamente, vamos acumulando pequenas loucuras, até chegar ao nosso ápice. Ao melhor de nós. Ao mais sincero de nós. A nós mesmos.

Imagina só, cometer algo tão, mas tão insano, que nos faça sentir plenamente nós mesmos. Inteiros.

Ou talvez a gente nunca sinta. Talvez só lá no final a gente olha para trás e percebe que cometeu tantos pequenos delitos que acabamos passando pela vida assim: Enlouquecendo.

Ou talvez a gente só se arrependa muito de não ter pegado as malas e ido para o outro lado.

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Quanto falta para enlouquecer?

So, I’m alone.

Essa foi minha conclusão mais recente.

Há muito tempo eu não experimentava essa situação de estar sozinha. Bem sozinha. Sem confiar em ninguém, sem ter com quem contar, para onde correr, onde gritar por ajuda. Pois bem, atualmente estou sozinha.

Começou em um dia que eu estava doente e precisava ir no médico. Nenhuma ajuda. Nenhuma companhia. Ninguém que pudesse cuidar da minha filha para que eu fosse ver o que era essa febre cheia de calafrios que remédio nenhum abaixava. Também não tinha nenhum dinheiro no bolso para pegar um táxi. Nada.

Continuou nos finais de semana seguintes. Eu precisei ir para aula, precisei sair, precisei trabalhar. Ninguém. Nada.

Então é isso. Sozinha. Parece romântico, mas a situação é péssima. É triste. De repente você percebe que está tudo nas suas mãos, assim, só nas suas mesmo. Você não tem com quem dividir o peso. Esse tipo de solidão abre um certo buraco em nós, um vazio tão grande que cabe tudo o que se pode imaginar.

Mas eu como boa Poliana encontrei o outro lado disso. E essa solidão veio muito bem acompanhada de uma liberdade que há tempos estava guardada na gaveta.

Então, eu estou sozinha. Eu vou continuar estando sozinha não importa onde eu esteja. Então eu posso estar onde quiser. Eu posso pegar uma mochila com toda minha utopia, minha insatisfação crônica e minhas responsabilidades e cuidar de tudo isso sozinha em outro lugar. Então meu lar está todo em mim. Comigo.

Então, talvez eu finalmente esteja sozinha. Sozinha o bastante para ter só o silêncio, para me ouvir com mais clareza, para fazer da minha vida a vida que eu quero. Para ir embora para mais perto de mim. E vou.

Vou deixar minha solidão trocar de paisagem.

 

So, I’m alone.