Gaveta

Nada fede como o mofo. Nem a sujeira, a ânsia, o excremento, o lixo, as toxinas dos bichos.

O cheiro do que foi deixado ao tempo. O guardado. Não há ação química mais poderosa do que o tempo. É o que adoece, entristece, empobrece e destrói. Destrói. Só Cronos é capaz de transformar o que há de mais limpo, belo e brilhoso na mais empoeirada, embolorada, rançosa e pestilenta das coisas.

E tem razão. Tem razão. Entregamos a ele nossas maiores virtudes, nossos melhores presentes. Jogamos à ação do tempo toalhas molhadas, louças novas, roupas garbosas, hábitos revigorantes. Nossos melhores amores, maiores sonhos e os mais poderosos dons. Cedemos.

Quanta negligência. Cremos no vácuo. Em um congelamento automático, indolor e conservatório – que nunca fora alcançado pela ciência, mas que temos certeza de ter nas mãos – capaz de nos devolver absolutamente intacta qualquer coisa que larguemos nas mãos do tempo. Quanta ingenuidade!

Cronos, o deus tempo, devora os filhos
Cronos, o deus tempo, devora os filhos

Jogado no canto da sala ou embrulhado em papel fino no fundo do armário: Tudo o que está à mercê do tempo está ameaçado. O tempo é uma sentença de morte.

E tem razão. Tem razão. Depositamos nele uma confiança estúpida e a responsabilidade imensa de lidar com o que não conseguimos, como se estivéssemos nos deitando no colo de um pai, que nos consolará e limpará toda a nossa sujeira. Mas Cronos é capaz de transformar a menor das manchas em uma esdrúxula podridão.

O pequeno incômodo físico, nos braços do tempo, se torna um câncer incurável espalhado por cada parte do corpo.

Nada fede como o mofo. Vamos abrir as gavetas.

 

Gaveta

Stay

Eu costumava ter muito medo de morrer. E, sinceramente, ainda tenho. Minhas viagens de avião que o digam. Mas o meu medo de morrer era um medo muito específico. Meu medo de morrer era um medo maior do que o de morrer. Era medo de desaparecer.

Medo de gente que não se abre para o mundo. Medo de eu, em minha eterna solidão, reclusa em mim, morrer e acabar. Morrer sabendo que nunca, em anos habitando a terra, alguém me conheceu de verdade. Medo de morrer com tudo isso aqui dentro de mim sem que ninguém soubesse. Medo de morrer tendo passado a vida em meu próprio túmulo.

Ao longo dos anos eu fui aprendendo a abrir. A expôr. A let it go. E claro que isso traz muita bad de vez em quando. Afinal, se mostro tanto de mim para o mundo. O que sobra para mim? O que ainda é exclusivamente meu?

Em minha última viagem de avião (e aqui abro um parênteses para dizer: a vida é muito difícil quando o amor que se sente por viajar é diretamente proporcional ao medo que se sente de voar) eu senti medo de morrer. As usual. E experimentei uma sensação incrível de ficar.

Que não sobre nada para mim. Que eu deixe em cada um de meus amores um pedaço meu. Que eu seja espalhada pela terra, inteira dividida entre todos os que passaram pela minha vida.

Eu não tenho mais medo de desaparecer. Eu, tão envolvida em toda essa profundidade que chamam de amor livre, estou bem espalhada. E a sensação é incrível. De conhecer de verdade. De ir a fundo. De saber que me deixei. De formas diferentes, com pessoas diferentes, eu fui ficando. Cada um dos que ficam levam consigo um segmento meu. E assim eu fico.

Em todos os nomes que me chamam carregam algo de mim. O que chamam apelidos carinhosos, eu chamo pseudônimos. Dentro de cada um deles está uma noite que viram comigo, uma manhã que acordam ao meu lado, uma conversa interminável na qual me revelei, na qual deixei que soubessem quem eu sou. Na qual me dividi, sem diminuir. Um dividir que multiplica.

Que eu siga saindo da exclusividade cada vez mais. Que eu siga me partilhando pelo mundo. Que eu vá com essa incrível sensação de ficar.

Stay

Quanta morte há em viver

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O desejo de morte é algo estranho. Estranho porque é contraditório. Ou não. Meu desejo de morte vai de encontro à vida que quero viver. E quero viver.

Talvez esse seja o problema: Não quero viver uma vida. São milhares as vidas que quero viver. São diversas as formas que me imagino vivendo, os dias que me imagino levando, as vontades que me imagino concretizando. E daí vem o desejo de morte.

Porque são tantas as formas, as possibilidades que sei que não atingirei. Todos esses conteúdos que eu gostaria de incluir na minha vida. Tantos diferentes horários, modos, lugares em que eu gostaria de acordar não cabem no meu cotidiano. Não cabem em todos os meus anos os dias que eu gostaria de levar.

Não cabe em mim essa vontade de ser tanta. De ser tão mais eu. De ser todas dentro de mim.

Meu universo não cabe no mundo.

E aí vem o desejo de morte.

Como quem olha uma lua no céu e outra no mar. Ismália enlouquecida entre a sua própria realidade e a vida. Entre todas as vidas que sonha buscar e sabe que jamais atingirá. Sempre entre dois, três, quatro ou milhares de planos tão distantes um do outro e simultaneamente perto. Dentro. Coexistindo debaixo de uma só pele. Em um só ser.

E em cada vida que levo mato outra em mim. Desfazendo-me de meus pedaços. Tornando-me menor.

Porque uma vida tão grande assim só pode caber na morte.

Quanta morte há em viver