Mariana

Eu não sei como começar a te escrever, Mariana. Tanto é que já comecei e apaguei umas três vezes.

É que tu é muito grande, Mariana. Enorme. Tu não cabe nas minhas linhas. Eu sou pequenininha, sei poucas palavras para te escrever, Mariana. Quantos dicionários seriam precisos para te traduzir?

Tu não podia ser um texto meu, Mariana. Tu tinha que ser um livro. Um livro bonito bonito e famoso, escrito por gente importante.

Que grandeza teu nome alcançou na minha vida, Mariana.

Tu foi embora há pouco. Deixou um gole de vinho na taça. O resto de um baseado. Tu foi embora há pouco, mas quem vai embora sou eu. Eu não quero ir pra longe de ti, Mariana. Eu não tinha me tocado o quanto eu não queria ir pra longe de ti, até que você chegou.

“Tu me dá consciência de mim, Mariana.”

Eu te vejo e descubro coisas sobre mim que não sabia antes. Só de te ver ali. Só de saber que você vem.

Tu foi minha guia, Mariana.

Sei lá que nova espécie de amor foi essa que a gente inventou, Mariana. Sei lá! Vai ver só vão diagnosticar no futuro. Vai ver só a gente vai saber. Sempre.

“Já reparou que quando a gente está no mesmo ambiente, forma uma terceira pessoa?”

“Aham. E que mulher!” tu me respondeu.

Obrigada, Mariana.

Até logo!

Mariana

A quem serve a tua infelicidade?

Uma das maiores heranças que o cristianismo nos deixou foi a culpa. É engraçado (mentira, não é engraçado, é triste pra caralho) como ela nos afetou de maneira universal. Mesmo os mais rebeldes, os mais subversivos, os grupos mais rompantes com relação a sociedade e dogmas seguem aprisionados a ela. A culpa nos invade.

E é claro que a culpa não é só culpa. A ideologia do sacrifício nos aprisiona em uma gaiola de sentimentos negativos: Tristeza, autopunição, glamourização da sofrimento. Parece ser necessário que penemos. Parece que só é válido e verdadeiro aquilo que é fundamentalmente dolorido.

Os movimentos sociais muitas vezes se veem pautados nessa base. Afinal, só existe militância porque o mundo é triste e, portanto, é preciso ser triste com ele. É preciso se doer, se sacrificar, dar o sangue. A ideologia do herói.

“Enquanto te exploram tu grita gol!” é uma pichação muito citada, compartilhada e espalhada por aí em forma de ideias. Teoricamente rompante com a “política do pão e circo” – embora eu, particularmente, encare essa visão como um tremendo elitismo, mas não vamos perder o foco – mas, de forma prática, culpabilizadora. Que feio é “gritar gol” da tua parte, explorado. Rompa logo as tuas amarras! Pare de ser boneco do sistema!

Não, não e não.

Eu, embora partindo do mesmo pressuposto que gera esse ciclo de negativismo, tenho ido cada vez mais para o outro lado. Afinal é exatamente isso: Só existe militância porque o mundo é triste.

Só existe militância porque o mundo é triste.

É por isso que queremos mudar o mundo: Justamente porque ele é triste. Se as pessoas estivessem plenamente felizes com a situação atual não haveria porque grupo nenhum, indivíduo nenhum querer mudar o mundo. Só queremos transformar a realidade porque, embora muitos prefiram ignorar isso, muita gente está triste com o mundo como ele está. O objetivo final é justamente a felicidade. Felicidade coletiva, felicidade genuína. Essa, que só tem como nascer, pautada na liberdade.

Ora e se o objetivo final é a felicidade, por que então essa não pode ser o meio? Pode sim.

Pode gritar gol, pode pular carnaval e amar natal em família. Pode parar de se culpar por tudo o que te disseram ser ridículo, ser vexaminoso, tanto hegemonicamente quanto no que chamamos de grupos de “resistência”. Pode sentir teu corpo e tua consciência e se deixar ser. Porque não gritar gol, não diminui a exploração que você sofre na pele.

Felicidade é resistência.

A felicidade é revolucionária.

Tão revolucionária que incomoda. A infelicidade dos grupos oprimidos socialmente não é apenas combustível para os movimentos sociais, é o triunfo do opressor. A tristeza está a serviço dos que odeiam. É exatamente isso que querem, nos ver penando, aos prantos, agonizando.

Tanto é que as manifestações mais felizes são as que mais incomodam.

A luta séria, severa e sofrida pelo casamento entre pessoas do mesmo gênero incomoda sim, mas não tanto quanto um beijo público (que não envolva 01 homem e 01 mulher, de preferência brancos e magros). Uma demonstração de amor, de afeto, de carinho ou de pura luxúria dessas é extremamente desconcertante para os conservadores. Olhe lá, que ofensivo, estão sendo felizes e sem a nossa autorização!

Voltemeia em uma ou outra manifestação eu costumo soltar frases do tipo “se não posso ficar loucassa, não é minha revolução” ou “se não posso pegar geral, não é minha revolução”. É brincadeira. Mas é verdade.

Tudo o que você faz na sua vida é ela. Faz parte dela. A forma. Cada ato, cada manifestação, cada causa em que você acredita, cada revolução da qual você participa é também parte de você. E eu não quero ser essa culpa, essa tristeza, esse sacrifício. Eu quero que todas as pessoas sejam, livremente felizes. É só por isso que brigo, só por isso que luto.

E é por isso que podemos sim começar por nós. Acho digno. Acho justo.

Acho que o nosso sorriso incomoda quem está contra nós e dá forças a quem é nosso aliado. A felicidade é capaz de empoderar, fortalecer e transformar. Enquanto a culpa nos deixa estagnados, presos em uma sensação improdutiva e a tristeza suga nossas energias, a felicidade é poderosamente mobilizadora, construtiva.

Ser feliz é um ato subversivo.

Quando se está do outro lado, quando não se é alguém do comercial de margarina, quando se vive diariamente as opressões colocadas sobre nós – o machismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, o preconceito de classes – sobreviver já é, em si, um combate ao sistema. Sobreviver com um sorriso no rosto, então, é ameaçador.

E maravilhoso.

Não tenhamos medo de nossa própria alegria. Não nos deixemos paralisar pela valorização do sacrifício. Sejamos individual, coletiva e publicamente felizes.

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A quem serve a tua infelicidade?

Reflexões sobre a desobediência

Até bem recentemente eu não costumava dar muito valor ao verbo desobedecer. Deve ser porque a gente ouve muito falar disso na infância e aí é assim mesmo que a coisa acaba soando para a gente: infantilizada. Falar em desobediência parece coisa de rebelde sem causa, de criança carente, enfim… me passava uma imagem muito negativa, até que por esses dias comecei a entrar em contato com muito material que me fez pensar e repensar a questão da obediência, bem como a falta dela.

Faz dias que quero escrever esse texto. Mas como sempre eu penso que preciso ter mais bagagem, estruturar as ideias, saber argumentar melhor… até que em um dado momento eu só emputeço, canso de tentar me organizar e escrevo a coisa de qualquer jeito, confusa e não fundamentada. O blog é meu mesmo.

Desde que vi esse filme fiquei transtornada com essa questão. O filme é baseado em fatos reais então simplesmente não tem como eu falar dele para vocês sem fazer spoiler. E para melhorar a história é bem confusa (mais fácil assistir mesmo), mas vamos tentar: Um homem liga em uma rede de fast-food, pergunta sobre uma funcionária (citando características aleatórias, mais ou menos no mesmo esquema dos assaltos por telefone aqui do Brasil) e a acusa de roubo. Ele, que se diz delegado, investigador da polícia, vai passando para a gerente as instruções de como agir com essa funcionária até que ele chegue ao local.

Ele instrui a gerente a revistar a moça, checar seus bolsos, sua bolsa e então… tirar sua roupa. Toda a roupa. Conferir se ela não está escondendo nada mesmo. Depois pede que a mantenham em cárcere privado – obviamente não com essas palavras – presa dentro de uma salinha. Sempre com alguém que possa estar ali controlando-a, de guarda mesmo. A situação chega em um nível no qual a menina é violentada.

Como eu disse, o filme é baseado em fatos reais. Aqui você encontra o vídeo real, nos provando que, por mais absurda que a situação pareça, o filme não exagerou at all. Foi basicamente isso mesmo. E esse foi apenas um de mais de 70 casos do tipo que foram registrados nos Estados Unidos: Um homem ligava, alegava ser uma autoridade, acusava alguém e ia orientando como as pessoas deveriam agir. Não sei como ficaram os outros casos. Nesse em específico sei que a gerente foi processada e condenada. O tal homem que passou os trotes, em compensação, até onde eu saiba foi inteiramente absolvido. Ele alegou que só estava falando no telefone. O que de fato foi o que ele fez.

Desde então tenho pensado sobre essas figuras de autoridade em nossas vidas, que começam sendo nossos pais e vão mudando de figura ao longo da vida: Policiais, professores, chefes, enfim… todos esses títulos carregam com eles uma boa carga de imposição sobre nós. E a eles, nós desde pequenos ouvimos, devemos obediência.

Aliás, essa é uma palavra constantemente dita pela maioria dos pais: “obedeça”. A mim, à sua avó, ao seu irmão. O que exatamente significa isso? Qual interesse temos em criar filhos, alunos, nações obedientes? Para quem serve essa obediência?

Veja bem, na prática, o obedecer consiste basicamente em acatar ordens. Sem questionamento (aliás, quem nunca ouviu o bom e velho “não me responda” que atire a primeira pedra), sem reflexão, apenas por um suposto “respeito” que devemos ter pelas figuras que são colocadas em nossa vida como autoridades, devemos confiar a elas plenamente nosso corpo, nossa saúde, nossas ações em geral. Eles sabem o que é melhor para nós, cabe a eles indicar o que devemos ou não fazer. E a nós, cabe obedecer.

Tudo isso pode parecer muito simples quando pensamos em um âmbito privado. É muito normal falar em obedecer aos pais como algo até positivo. Entretanto, é sempre bom lembrar que as pessoas que formam uma família são as mesmas que formam todo o resto da sociedade, toda uma nação. E aí quando passamos essa ideia para um cenário histórico mais abrangente a coisa fica mais complexa.

Nesses meios de ativismo da vida eu já tinha ouvido várias vezes que muito mais sangue foi derramado em nome da ordem do que da desordem (a frase não é bem essa, mas vocês pegaram a ideia, não é?). E, bom, quando pensamos nessa cultura da aceitação, isso faz todo sentido. Os piores absurdos que o mundo já viu so foram possíveis porque haviam pessoas que obedeciam. A ditadura militar, o holocausto, tudo isso se constituiu não com base em um monte de pessoas más que isoladamente queriam torturar outras, mas sim com líderes, figuras com autoridade, que eram respeitadas e, portanto, obedecidas pelas outras.

No filme O Leitor – mais spoilers, lidem – há um julgamento no qual uma mulher é acusada de matar queimadas milhares de outras. Ela então explica que não podia deixar elas saírem, que só estava fazendo o trabalho dela (e essa é outra frase diária usada sistematicamente para justificar atos que as pessoas não tem exatamente como explicar “eu só estou fazendo o meu trabalho”). E aí é claro que temos muito da questão financeira, do emprego, da necessidade dele e da estabilidade, mas eu me arrisco a dizer que essas são questões superficiais e que o buraco é mais embaixo.

No primeiro filme que citei, o suposto policial faz questão de constantemente elogiar a gerente que está ajudando ele,  diz que ela está “fazendo um bom trabalho”. E isso de “fazer um bom trabalho” é muito interessante.

O primeiro ponto é social. Vivemos em um mundo que valoriza muito essa questão do trabalho, do se mostrar prestativo, útil. Se você escolhe viver uma vida na qual não tem muita utilidade para o sistema atual – por exemplo, consumir, fazer o dinheiro girar – seu modelo de vida dificilmente vai ser socialmente considerado bom. Você precisa ser produtivo. O segundo ponto é ainda mais profundo, a questão egóica do ser humano que desde a infância, e durante toda a vida, permanece ligado ao reforço positivo, à necessidade de ouvir elogios.

Essas duas coisas se juntam e atingem as pessoas de uma forma tão profunda que sequer é percebida e, por muitas vezes, acaba comandando a vida delas. “Fazer um bom trabalho” é ao mesmo tempo se sentir bem consigo mesmo e útil para o meio que te cerca.

Algo que ilustra bem isso são os soldados de guerra que voltemeia são condecorados e exibem com orgulho suas medalhas que, não raramente, significam basicamente que aquela pessoa matou muitas outras. Mas é claro que com o ego e o interesse do Estado trabalhando juntos tem para eles um valor simbólico muito mais profundo do que isso.

Inevitavelmente com esse tipo de história a gente se questiona. Até onde eu iria? Em que momento eu deixaria a obediência de lado? Quando perceberia que aquilo se tratava de um trote? Um genocídio? Uma guerra injusta que não era minha?

Em resumo o que quero dizer é: Quando estamos muito focados em fazer um bom trabalho, nos esquecemos de pensar se estamos fazendo um trabalho bom. Em nome da obediência o questionamento é deixado de lado. E a partir disso tudo é possível. Tudo mesmo. É ingenuidade pensar que é difícil perder esse foco. Não é. Você provavelmente já o perdeu diversas vezes ao longo da vida (bem como eu). E quando ele é perdido podemos ser transformados em qualquer coisa que esperam de nós.

Ps. Eu queria ir mais longe aqui, falar sobre como a legislação age sobre nós. Citar que só chamamos e só encaramos como drogas os entorpecentes ilícitos, enquanto os remédios de farmácia são tratados com extrema naturalidade e o fato de que voltemeia usamos “é crime” como argumento inquestionável e inviolável. Mas acho que isso aqui, que a princípio era para se chamar “breve reflexão sobre a desobediência”, já ficou não breve demais para a madrugada de uma segunda-feira.

Ps2. Acabei de digitar “obediência” no google e estou chocada com o número de imagens se referindo a deus que apareceram. Dá para falar um monte sobre isso também.

Reflexões sobre a desobediência