Gaveta

Nada fede como o mofo. Nem a sujeira, a ânsia, o excremento, o lixo, as toxinas dos bichos.

O cheiro do que foi deixado ao tempo. O guardado. Não há ação química mais poderosa do que o tempo. É o que adoece, entristece, empobrece e destrói. Destrói. Só Cronos é capaz de transformar o que há de mais limpo, belo e brilhoso na mais empoeirada, embolorada, rançosa e pestilenta das coisas.

E tem razão. Tem razão. Entregamos a ele nossas maiores virtudes, nossos melhores presentes. Jogamos à ação do tempo toalhas molhadas, louças novas, roupas garbosas, hábitos revigorantes. Nossos melhores amores, maiores sonhos e os mais poderosos dons. Cedemos.

Quanta negligência. Cremos no vácuo. Em um congelamento automático, indolor e conservatório – que nunca fora alcançado pela ciência, mas que temos certeza de ter nas mãos – capaz de nos devolver absolutamente intacta qualquer coisa que larguemos nas mãos do tempo. Quanta ingenuidade!

Cronos, o deus tempo, devora os filhos
Cronos, o deus tempo, devora os filhos

Jogado no canto da sala ou embrulhado em papel fino no fundo do armário: Tudo o que está à mercê do tempo está ameaçado. O tempo é uma sentença de morte.

E tem razão. Tem razão. Depositamos nele uma confiança estúpida e a responsabilidade imensa de lidar com o que não conseguimos, como se estivéssemos nos deitando no colo de um pai, que nos consolará e limpará toda a nossa sujeira. Mas Cronos é capaz de transformar a menor das manchas em uma esdrúxula podridão.

O pequeno incômodo físico, nos braços do tempo, se torna um câncer incurável espalhado por cada parte do corpo.

Nada fede como o mofo. Vamos abrir as gavetas.

 

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