Vida profissional. A nossa vida.

Essa é a primeira regra do mundo coorporativo: Separar vida profissional da vida pessoal. Eu sou uma dessas pessoas que separam a vida profissional da pessoal de modo absurdamente discrepante.

Esteticamente o cosplay de pessoa adequada: Piercing para dentro do nariz, ombros cobertos. Em termos de expressão mais ainda. Pouco deixo transparecer do que penso, do que sinto, do que de fato acredito e do que gostaria de estar fazendo quando estou no meu trabalho. E, acreditem, só esse pouco já é demais.

Procuro não me envolver com as pessoas ao meu redor, com quem me comunico, com quem busco contato para fins profissionais. Essas pessoas só sabem de mim o que faço e provavelmente me resumem a isso. Não é a toa que temos a tendência de nos apresentar assim: Meu nome é tal, eu sou – insira sua profissão aqui -.

Tudo ok. Tirando que não somos isso.

Guardo minha vida pessoal para as manhãs sozinha em casa, as noites do final de semana. As cartas que não escrevo, os posts no blog, tudo o que há de mais inapropriado em minha fala, em meus gestos, em minha ebriedade. Tudo isso é muito mais eu do que a minha vida profissional. Tanto é que a isso chamamos de vida pessoal. Pessoa. O nosso lado ser humano.

Tudo ok. Tirando que a nossa vida profissional é também a nossa vida.

É o nosso corpo e nosso cérebro que estão ali. Como separar vida pessoal de profissional se são as horas de nossas vidas que estão sendo gastas ali? Talvez até compensasse se pudéssemos fazer uma substituição. Se pudéssemos de alguma forma ressarcir todo esse tempo em que não somos nós mesmos para gastar sendo intensamente quem somos. Não podemos. Esse tempo não volta.

Quantas horas da minha vida estou mentindo. E não falo das mentiras que contamos para nós mesmos, essas que fazem parte do processo de ser humano. Falo justamente das que nos distanciam desse estado de indivíduo. Das mentiras que contamos para o mundo ao nosso redor quando temos que nos vestir de profissionais.

O status de empregado competente é um atentado a nossa humanidade. Uma prisão. Um cárcere que nos cela dentro de nós mesmos e exige de nós uma segmentação humana impossível de existir em termos reais. Não somos pedaços. Não somos desligáveis. Somos mosaicos complexos, completos, feitos de carne, osso e sinapses.

Não nos enquadramos em divisórias. Somos sinestésicos.

A estética do trabalho é prova simbólica da impossibilidade dessa segregação. Preciso me vestir de profissional porque, afinal, é impossível me despir de mim mesma. Então o melhor é cobrir para fingir que não estou ali. Mas estou.

E todos sabem que estamos presentes. Estamos logo ali debaixo. Estamos, à fundo,  nos esforçando para não usar nossa própria voz ao subir o tom.

Essa divisão é tão frágil, tão falha que qualquer coisa pode ser considerada uma ameaça a ela. Qualquer sorriso sincero que se dê em momento inapropriado. Qualquer envolvimento com as pessoas ao redor. Qualquer expressão de humanidade é capaz de quebrar essa casca de mentiras, essas grades de papel. Inclusive esse texto.

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Vida profissional. A nossa vida.