COROA

Dizem que um dos nossos chacras fica no topo da cabeça. Só pode. Se não tiver, acabei de instituí-lo. É mágico o topo da nossa cabeça. Parece o início de uma estrada, bem feita, pavimentada, prontinha para levar o que entrar por ali para o resto do corpo todo. Quando bate ali, sinto tudo circulando, chega às mãos, aos pés, passa pelas pernas, atinge a barriga. O sol, a água do chuveiro, a chuva, a folha que cai. Tudo o que passa pelo topo da cabeça me atinge inteira. O resto é só respingo.

Sahasrara o nome do chacra, não é? Eu conheço pouco. Não sei pronunciar. Sei que deve ter cor de alfazema. Embora tudo o que é considerado coronário costume ser dourado ou branco. Pode ser também. Conheço pouco. Não sei ensinar. Sei que deve ter um chacra. E deve ter cor de alfazema. Eu acho.

Ou não. Pode ser outra coisa também. Pode ser também minha moleira que esqueceu de fechar e fica deixando a vida toda passar por ali, circular pelo meu corpo, me botar em movimento. Sei pouca coisa. Sei a sensação de plenitude. Ia dizer que é grande a sensação de plenitude, mas não é. Não tem grandeza nem uma. Também não é pequena. Só é plena. Cheia, completa.

Tenho deixado mais a água bater, a lua iluminar e o sol aquecer, embora esse bichinho eu reconheço que seja um pouco agressivo as vezes, chacra nenhum dá conta de não se esconder na sombra. Tenho aproveitado bem as mãos, que me passam por ali, deixo o carinho de quem quer afofar o pouco cabelo que me resta se espalhar, num cafuné que sinto até nos dedos dos pés.

Tenho valorizado o topo da cabeça. Esse lugar onde a mãe beija e parece que o amor nos toma por inteiro. Esse lugar onde eventualmente eu paro de existir. Deve, inclusive, existir um ponto, um milímetro certo, uma latitude e longitude exatas onde o meu corpo físico acaba e acima de mim fica só o ar. O universo e toda a energia que o compõe. E eu ali embaixo, absorvendo essa vida pelo topo da minha cabeça.

Deve ter alguma coisa. Não é possível. Um chacra, uma moleira, uma auréola, o final do meu cérebro ou o início do meu ser – não sei bem onde começo e onde termino – uma coroa. Deve ser uma coroa. Qualquer coisa que me ponha nessa posição de rainha de mim, qualquer coisa que me dê tanta verdade circulando pelo corpo, qualquer coisa que explique a sensação tão boa de tudo o que passa por aqui.

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COROA

Lixo

Veja bem que loucura, há algum tempo atrás escrevi esse texto e, realmente, estava vivendo uma fase com muitas gavetas na época. Hoje falo de lixo, porque tenho andado mais próxima dessa ideia, Acredito que isso ainda vá evoluir mais (oremos).

Mas descobrir o lixo foi algo maravilhoso para mim. E a ideia do lixo tem chegado a mim de diversas formas. “Joga fora”. “Abandona”. Me falam tantos, de tantos lugares. Que tive que ouvir, né? É difícil demais. A gente ignora durante um tempo. Mas tem uma hora que tem que escutar.

E não é que a ideia foi boa? Rapaz. E foi.

Quando veio, veio inesperada. Veio assim da amiga de uma amiga que sem querer entrou na minha casa. E mudou minha vida em duas frases, minha gente. Olhou a minha louça não lavada, o chão sem varrer, a roupa no tanque e a cara de cansada.

Como pode? A casa tão bagunçada e a gente tão cansada? A bagunça é cansativa, vixe. Exaustiva. Ela te suga para dentro dela. Você se sente lá, mais um serzinho, miudinho em meio a tanta coisa acontecendo. Não dá nem pra ver o que é bom e o que é ruim, o que ainda presta e o que não, na bagunça.

Tudo é muito confuso. Nossa. Facinho de se perder.

E a amiga da amiga que entrou na minha casa me olhou e disse: Lava essa louça. Disse com uma doçura que só ela tinha. Mas disse: Lava essa louça. Eu respondi que estava muito difícil, que eu não sabia por onde começar.

Sabe, quando tudo parece dolorido demais? Cada passo parece a toa, em vão. Cansativo, nossa. Exaustivo.

E realmente, na bagunça. a gente não sabe por onde começar.

Ela me disse a segunda frase: Joga fora tudo o que você não usa mais. Ai, deliciosas! Deliciosas essas palavras! Mágicas! Joga fora tudo o que você não usa mais.

Quão grata eu sou, por quem entrou na minha casa e me mandou lavar a louça e jogar fora tudo o que eu não usava mais. Desde então tenho feito isso. Me preocupado com essa limpeza e com remover o excesso.

Aprendi aí que, muitas vezes, a bagunça é só excesso. Parece uma zona, mas só tem coisa demais. Fica muito mais fácil organizar esvaziando o espaço.

E vê bem: Dá pra jogar uma porrada de coisa fora. Roupa, papel, conta, cabelo, bilhete, passagem, dúvida, rancor, amor antigo, vício, mania, ego, nossa. Muita coisa. Nossa. Tem muita coisa sobrando. Daí não tem espaço que dê conta mesmo. E sufoca. Sufoca sim.

Tem gente que explode também, mas olha só, ainda é questão de muito em pouco espaço.

Dá para trabalhar com o espaço que a gente tem. Esvaziar a gaveta, o armário, o peito, o tempo, a mente, a casa, a alma, a pia e a pele. Dá para colocar ali só o proveitoso. Joga fora tudo o que você não usa mais.

Desde então comecei a lavar a louça. Também tenho andado por aí me despindo.

Lixo

Mariana

Eu não sei como começar a te escrever, Mariana. Tanto é que já comecei e apaguei umas três vezes.

É que tu é muito grande, Mariana. Enorme. Tu não cabe nas minhas linhas. Eu sou pequenininha, sei poucas palavras para te escrever, Mariana. Quantos dicionários seriam precisos para te traduzir?

Tu não podia ser um texto meu, Mariana. Tu tinha que ser um livro. Um livro bonito bonito e famoso, escrito por gente importante.

Que grandeza teu nome alcançou na minha vida, Mariana.

Tu foi embora há pouco. Deixou um gole de vinho na taça. O resto de um baseado. Tu foi embora há pouco, mas quem vai embora sou eu. Eu não quero ir pra longe de ti, Mariana. Eu não tinha me tocado o quanto eu não queria ir pra longe de ti, até que você chegou.

“Tu me dá consciência de mim, Mariana.”

Eu te vejo e descubro coisas sobre mim que não sabia antes. Só de te ver ali. Só de saber que você vem.

Tu foi minha guia, Mariana.

Sei lá que nova espécie de amor foi essa que a gente inventou, Mariana. Sei lá! Vai ver só vão diagnosticar no futuro. Vai ver só a gente vai saber. Sempre.

“Já reparou que quando a gente está no mesmo ambiente, forma uma terceira pessoa?”

“Aham. E que mulher!” tu me respondeu.

Obrigada, Mariana.

Até logo!

Mariana

Dou a lua a mim*

Escorro em lua nova. Transbordo.

Deixo a beleza da lua cheia para ela. Não a tiro. Inteira. Brilhando. Pronta para ser vista, exaltada, admirada. Não a menosprezo. Mas eu, particularmente, sou lua nova.

Lua nova que, reclusa, renasce.

Me afogo em lua nova.

Acompanho-a em seu movimento silencioso. Recupero as energias. Sinto, sangro, sofro e saturo. Até começar a brotar pelas beiradas. Até quebrar parte a parte o casulo que me envolve.

Reabro-me em lua nova.

Lanço voo. Rumo ao céu, mas com cheiro de terra. De raiz, brotinho. Tudo ainda sem forma. Sem brilho, sem cheiro, sem flor. Tudo ainda meio cru, desajeitado, sombrio.

A parte mais viva da lua. O início. O parto.

Desperto em lua nova.

Deixo o breu tomar conta. Os olhos alheios, fascinados em busca da lua cheia, pouco veem. Sentem apenas a ausência, tateiam a escuridão. Enquanto eu, dou a luz a mim.

 

*O título desse texto era apenas “lua nova”, mas ao escrever a última frase dele, cometi o ato falho de trocar a palavra “luz” por “lua”. Achei simbólico demais para deixar passar.

Dou a lua a mim*

Tribunal

Eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada. É esse o efeito de um sábado chuvoso em casa: Enviar uma carta para uma ex-namorada. O calendário tem um efeito importante sobre nós. Eu dificilmente enviaria essa carta em uma terça comum. Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

É engraçada a forma como estabelecemos nossa própria ordem. De repente existem milhares de regras, que aparentemente ninguém colocou, mas estão lá. Para nós, não há dúvida de que estão lá.

Escrevemos com nossas inseguranças e nossa pouca experiência essa bíblia. E a guardamos a sete chaves. Acatamos diária e quase que inconscientemente as ordens ali expressas. Claramente ditadas por uma divindade interior de caráter extremamente patriarcal. Dez, vinte, trezentos mandamentos nos martelando a todo momento.

Mas é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

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“Eu me dou ótimos conselhos, mas eu raramente os sigo.” Alice

Também já revi muitas conversas, comi mais do que deveria, ouvi músicas que achava que já tinha superado e procurei no google sobre como cuidar de gérberas.

(Acho que a parte de procurar no google sobre como cuidar de gérberas é o maior dos pecados. Mas eu realmente gosto muito de gérberas.)

Nós vamos achando espaços, dentro de nossas próprias regras, para burlá-las.

Atenuantes. Há de haver lugar para os atenuantes.

Advogamos em prol do nosso id. Buscamos as falhas, os pequenos deslizes, as exceções expressas e não expressas na lei para que possamos jogá-las em nossa própria cara. Protestar. Com faixas, cartazes e gritos ensaiados vamos as ruas em defesa de nossas próprias fraquezas. Na função de libertá-las. De permitir aos nossos pecados que existam e se façam visíveis.

O único problema é que, chegando lá, bem em cima da hora de apresentar nossa defesa, nos deparamos com eles. Os juízes. Os únicos que podem determinar a pena que devemos ou não pegar.

E lá estão eles. Sendo nós mesmos. Estando dentro de nós.

Bem mais fácil não ter que tomar partido diante de nossos próprios processos. Mas temos. Costumamos ser cobrados, hora ou outra, pelo destino, a nos posicionarmos. E o martelo em nossas mãos costuma nos tornar cruéis em relação a nós mesmos. Um poder que nos toma conta. E nos faz colocar mais um anexo em nossa constituição. Ou reforçar uma já existente. Assegurar nossa pena.

Não fossem esses arruaceiros dos atenuantes. Dos direitos humanos. Os anarquistas do erro, do pecado, dos sábados de chuva em casa. Das cartas que escrevemos. Não fossem eles estaríamos tranquilos, dormindo sob a serenidade de nossos acertos, sabendo exatamente como será o dia de amanhã.

Mas, afinal, é sábado. Eu estou em casa. Está chovendo. E eu acabei de enviar uma carta para uma ex-namorada.

Tribunal

Terra firme

Eu pisei na areia. Dois meses atrás eu pisei na areia. E fiquei.

Eu pisei na areia e decidi que ali seria minha terra firme. Que coisa louca essa, de gente que passou a vida inteira voando, cheia de solo, concreto, ali pertinho, logo abaixo. Mas só decide pisar no chão quando chega na areia.

Fiz da areia minha terra firme.

Só ela, assim, instável como eu, me deu vontade de ficar. Só ela me solidificou. Essa areia que voa, leva e afunda. Essa areia é meu concreto.

E a gente já ficou muito longe. Muito tempo. Deixa eu te fazer de solo. Deixa eu construir aqui, no meio de toda essa areia fofa, o que há de mais sólido na minha vida. E a gente vai passar a vida assim. Juntas, olhando o mar. Eu e a areia.

Me engole. Me movediça.

Que aqui eu fico. E piso forte, firme, direta. Com a certeza de quem quer ficar. E olha que eu não sou de ficar. Eu vou. Só não vou quando já estou em casa.

Estou em casa.

Terra firme

Sobre solidões

“s.f. Estado de quem está só, retirado do mundo; isolamento: os encantos da solidão.
Ermo, lugar despovoado e não frequentado pelas pessoas: retirar-se na solidão.
Isolamento moral, interiorização: a solidão do espírito.”

Eu poderia escrever um livro todo sobre a solidão. Não é de hoje minha relação profunda com essa palavra, meu amor e minha dedicação à ela. Porque, me perdoem aqui o excesso de pós-modernidade, mas para mim poucas coisas são certas sobre a solidão. A primeira é que ela é muitas. É plural. Cada um estabelece uma relação com a solidão.

A segunda é que ela dá medo. Mesmo para aqueles que, como eu, estabelecem com ela uma relação positiva. Nutrem um certo afeto. A solidão é universalmente assustadora.

Mas voltando a pluralidade: Solidões. Ironicamente, embora essa seja a palavra mais sozinha da língua portuguesa, não há uma só solidão. Eu, desde que a aceitei em minha vida, tenho conhecido as mais diversas solidões. Sobre uma delas eu falei aqui.

Uma outra eu tenho experimentado agora. Essa se dá simultaneamente em um plano prático, material e racional, filosófico. Tenho gostado de chamá-la de solidão necessária (porque, de fato, ela é).

Diferente da solidão de quem está cercado e se sente sozinho, essa solidão é mais física, mais palpável. É um estado de reclusão. Dá para chamar de casulo também, se assim preferir. Aliás, o casulo é uma metáfora fantástica.

Porque lá estamos nós, sozinhos, em um aparente isolamento, uma superficialidade estática. E nos debatendo. Tanta coisa acontece dentro de um casulo que acho até meio impossível descrever. É a maior das transformações. Um excesso de movimento e trabalho arquitetônico contínuo de quem está prestes a voar.

Solidão necessária. Bem como passageira. Tão temporária quanto inevitável.

É como se dispor a entrar em um labirinto e, sem pressa, se dedicar a atravessá-lo. Devagar. Conhecendo ponto a ponto. Voltando. Refazendo as estratégias. Por saber que está lá, do outro lado, o lugar no qual se deseja chegar. E ficar parado no começo, mesmo que cercado, mesmo que envolvido, sem solidão alguma, não nos leva magicamente a lugar algum.

Solidão de quem quer se encontrar.

E com essa é preciso estabelecer uma boa relação. Abraçá-la. E olha que, essa solidão – em especial – é assustadora. Talvez ainda mais do que as outras. Mas nós precisamos aceitá-la. Se possível até aprender a amar um pouquinho esse estágio.

Porque uma vez que ela está aqui já significa não ser mais possível voltar ao outro estágio, o inicial. Essa história bem platônica, bem Mito da Caverna mesmo. Ele está aqui. Essa solidão está aqui e – dolorosamente ou não – é ela que vai nos levar ao norte.

Nos agarremos nesta bússola.

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Sobre solidões

A quem serve a tua infelicidade?

Uma das maiores heranças que o cristianismo nos deixou foi a culpa. É engraçado (mentira, não é engraçado, é triste pra caralho) como ela nos afetou de maneira universal. Mesmo os mais rebeldes, os mais subversivos, os grupos mais rompantes com relação a sociedade e dogmas seguem aprisionados a ela. A culpa nos invade.

E é claro que a culpa não é só culpa. A ideologia do sacrifício nos aprisiona em uma gaiola de sentimentos negativos: Tristeza, autopunição, glamourização da sofrimento. Parece ser necessário que penemos. Parece que só é válido e verdadeiro aquilo que é fundamentalmente dolorido.

Os movimentos sociais muitas vezes se veem pautados nessa base. Afinal, só existe militância porque o mundo é triste e, portanto, é preciso ser triste com ele. É preciso se doer, se sacrificar, dar o sangue. A ideologia do herói.

“Enquanto te exploram tu grita gol!” é uma pichação muito citada, compartilhada e espalhada por aí em forma de ideias. Teoricamente rompante com a “política do pão e circo” – embora eu, particularmente, encare essa visão como um tremendo elitismo, mas não vamos perder o foco – mas, de forma prática, culpabilizadora. Que feio é “gritar gol” da tua parte, explorado. Rompa logo as tuas amarras! Pare de ser boneco do sistema!

Não, não e não.

Eu, embora partindo do mesmo pressuposto que gera esse ciclo de negativismo, tenho ido cada vez mais para o outro lado. Afinal é exatamente isso: Só existe militância porque o mundo é triste.

Só existe militância porque o mundo é triste.

É por isso que queremos mudar o mundo: Justamente porque ele é triste. Se as pessoas estivessem plenamente felizes com a situação atual não haveria porque grupo nenhum, indivíduo nenhum querer mudar o mundo. Só queremos transformar a realidade porque, embora muitos prefiram ignorar isso, muita gente está triste com o mundo como ele está. O objetivo final é justamente a felicidade. Felicidade coletiva, felicidade genuína. Essa, que só tem como nascer, pautada na liberdade.

Ora e se o objetivo final é a felicidade, por que então essa não pode ser o meio? Pode sim.

Pode gritar gol, pode pular carnaval e amar natal em família. Pode parar de se culpar por tudo o que te disseram ser ridículo, ser vexaminoso, tanto hegemonicamente quanto no que chamamos de grupos de “resistência”. Pode sentir teu corpo e tua consciência e se deixar ser. Porque não gritar gol, não diminui a exploração que você sofre na pele.

Felicidade é resistência.

A felicidade é revolucionária.

Tão revolucionária que incomoda. A infelicidade dos grupos oprimidos socialmente não é apenas combustível para os movimentos sociais, é o triunfo do opressor. A tristeza está a serviço dos que odeiam. É exatamente isso que querem, nos ver penando, aos prantos, agonizando.

Tanto é que as manifestações mais felizes são as que mais incomodam.

A luta séria, severa e sofrida pelo casamento entre pessoas do mesmo gênero incomoda sim, mas não tanto quanto um beijo público (que não envolva 01 homem e 01 mulher, de preferência brancos e magros). Uma demonstração de amor, de afeto, de carinho ou de pura luxúria dessas é extremamente desconcertante para os conservadores. Olhe lá, que ofensivo, estão sendo felizes e sem a nossa autorização!

Voltemeia em uma ou outra manifestação eu costumo soltar frases do tipo “se não posso ficar loucassa, não é minha revolução” ou “se não posso pegar geral, não é minha revolução”. É brincadeira. Mas é verdade.

Tudo o que você faz na sua vida é ela. Faz parte dela. A forma. Cada ato, cada manifestação, cada causa em que você acredita, cada revolução da qual você participa é também parte de você. E eu não quero ser essa culpa, essa tristeza, esse sacrifício. Eu quero que todas as pessoas sejam, livremente felizes. É só por isso que brigo, só por isso que luto.

E é por isso que podemos sim começar por nós. Acho digno. Acho justo.

Acho que o nosso sorriso incomoda quem está contra nós e dá forças a quem é nosso aliado. A felicidade é capaz de empoderar, fortalecer e transformar. Enquanto a culpa nos deixa estagnados, presos em uma sensação improdutiva e a tristeza suga nossas energias, a felicidade é poderosamente mobilizadora, construtiva.

Ser feliz é um ato subversivo.

Quando se está do outro lado, quando não se é alguém do comercial de margarina, quando se vive diariamente as opressões colocadas sobre nós – o machismo, o racismo, a homofobia, a transfobia, o preconceito de classes – sobreviver já é, em si, um combate ao sistema. Sobreviver com um sorriso no rosto, então, é ameaçador.

E maravilhoso.

Não tenhamos medo de nossa própria alegria. Não nos deixemos paralisar pela valorização do sacrifício. Sejamos individual, coletiva e publicamente felizes.

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A quem serve a tua infelicidade?